Analfabetismo atinge 12,2% dos jovens com deficiência

Taxa é 12 vezes maior que entre jovens sem deficiência e chega a 40,4% entre pessoas com limitações associadas a funções mentais
Por O Hoje
Data: 22/09/2026
Em Goiânia, matrículas de estudantes de 0 a 18 anos com necessidades educacionais especiais passaram de 1.998, em 2007, para 6.732, em 2012, segundo estudo

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que 12,2% dos jovens de 15 a 29 anos com deficiência são analfabetos no Brasil, enquanto entre jovens sem deficiência a taxa é de 1%. O índice chega a 40,4% entre pessoas com limitações associadas a funções mentais. Os dados integram a segunda edição do estudo Pessoas com Deficiência e as Desigualdades Sociais no Brasil, elaborado pelo IBGE com base no Censo Demográfico 2022, e são acompanhados por indicadores do Censo Escolar de 2025, relatos de pessoas com deficiência e estudos científicos sobre educação inclusiva.

O País tem 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população com 2 anos ou mais de idade. No campo educacional, os indicadores mostram diferenças nas taxas de alfabetização, frequência escolar e acesso a recursos de acessibilidade de acordo com a presença e o grau de deficiência.

Entre jovens de 15 a 29 anos, a taxa de analfabetismo é de 12,2% entre pessoas com deficiência, ante 1,0% entre pessoas sem deficiência. O percentual varia conforme o tipo de dificuldade. Entre pessoas com limitações associadas a funções mentais, chega a 40,4%. Entre aquelas com mais de uma deficiência, é de 34,0%; entre as que apresentam dificuldade para pegar objetos pequenos, 31,3%; para caminhar ou subir degraus, 23,3%; para ouvir, 10,0%; e para enxergar, 3,5%.

A frequência escolar também apresenta diferenças. Entre crianças de 6 a 14 anos sem deficiência, a taxa de frequência escolar bruta é de 98,4%. Entre crianças com deficiência, o índice é de 92,6%. Considerando o grau de severidade, a frequência chega a 95,6% entre crianças com deficiência severa e cai para 82,3% entre aquelas com deficiência profunda, grupo formado por pessoas que não conseguem de modo algum exercer a função.

Na faixa etária de 15 a 17 anos, a frequência escolar é de 65,6% entre jovens com deficiência profunda, 82,8% entre aqueles com deficiência severa e 85,4% entre adolescentes sem deficiência.

Em Goiânia, dados de um estudo acadêmico sobre o impacto do programa BPC na Escola também registram mudanças no acesso de estudantes com necessidades educacionais especiais à educação. Entre 2007 e 2012, as matrículas de estudantes de 0 a 18 anos com Necessidades Educacionais Especiais (NEE) passaram de 1.998 para 6.732 na Capital, uma expansão de 236,9%. Em 2012, a maior parte das matrículas correspondia a estudantes com deficiência intelectual/mental, com 4.847 registros, seguida por deficiência auditiva, com 788, deficiência física, com 657, deficiência múltipla, com 481, e deficiência visual, com 390.

Acessibilidade nas escolas

Dados do Censo Escolar de 2025, conduzido pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) e analisados no relatório do IBGE, indicam que 78,5% das escolas de educação básica possuem ao menos algum recurso de acessibilidade. Banheiros acessíveis estão presentes em 57,0% das unidades, enquanto 30,0% dispõem de Sala de Recursos Multifuncionais para Atendimento Educacional Especializado (AEE). Profissionais de apoio escolar para alunos com deficiência estão presentes em 26,2% das escolas.

Os indicadores também apresentam diferenças entre as redes de ensino. Na rede privada, 84,9% das escolas possuem recursos físicos de acessibilidade e 64,4% têm banheiros adaptados. Na rede pública, 34,5% contam com Salas de Recursos Multifuncionais e 32,8% possuem profissionais de apoio.

Para Carolina Videira, presidente da ONG Turma do Jiló, a organização das escolas ainda apresenta obstáculos para a inclusão. Segundo a especialista, professores podem entrar em sala de aula sem profissional de apoio, formação específica para diferentes deficiências e tempo para planejamento pedagógico. Nesse cenário, estudantes podem permanecer matriculados e fisicamente inseridos no ambiente escolar sem garantias de aprendizagem efetiva.

Deisiana Paes e Marcia Regina Marolo, do Instituto Jô Clemente (IJC), afirmam que a inclusão depende de condições para que estudantes participem das atividades, tenham acesso adaptado ao currículo, desenvolvam autonomia e avancem na escolarização. Os especialistas defendem a implementação do Desenho Universal para a Aprendizagem (DUA), que prevê a flexibilização de formas de ensino e avaliação para evitar defasagens acumuladas ao longo dos anos e impactos no projeto de vida dos estudantes.

Jornalista PcD relata barreiras e dificuldades na trajetória escolar

A jornalista e pessoa com deficiência (PcD) Ana Beatriz Santiago relata dificuldades enfrentadas durante a trajetória escolar e acadêmica. Com visão parcial, a jornalista cursou o ensino fundamental e o ensino médio em escolas públicas de diferentes regiões do País. “As escolas não tinham os recursos necessários para que eu fizesse [as atividades]. Até tinha as professoras que acompanham, mas para mim acabou que não tinha o suficiente.”

Segundo o relato, a ausência de materiais adaptados e de profissionais de apoio suficientes criava barreiras de aprendizado e convivência. A falta de papel para impressão de provas e materiais ampliados também era um obstáculo. Em determinado momento do ensino médio, professores passaram a delegar o auxílio aos próprios colegas de turma, situação que, segundo Ana Beatriz, prejudicou as relações interpessoais. No terceiro ano do ensino médio, a autonomia aumentou após a liberação formal para utilizar o celular em sala de aula, permitindo fotografar a lousa e aproximar a imagem.

No ensino superior, a jornalista relata ter encontrado professores que aparentavam lidar com uma pessoa com deficiência pela primeira vez. Após o diálogo inicial, o corpo docente buscava adaptações, segundo o relato, mas a instituição não fornecia avisos prévios sobre a presença de estudantes com deficiência para o planejamento das aulas. O acompanhamento dependia do uso de leitores de tela e de provas ampliadas ou realizadas com leitores em salas separadas.

A jornalista também relata dificuldades relacionadas ao acesso a livros em formatos digitais acessíveis. Segundo o depoimento, a ausência desses materiais pode exigir o uso de réguas lupas e aumentar o tempo necessário para concluir leituras.

Ensino superior e mercado de trabalho

As diferenças observadas na educação também aparecem nos indicadores de acesso ao ensino superior e de inserção no mercado de trabalho.

Segundo dados do Censo da Educação Superior de 2024 tabulados pelo IBGE, o número de pessoas com deficiência matriculadas em cursos de graduação passou de 33.377, em 2014, para 95.572, em 2024. O grupo representa 0,93% do total de universitários do País. Na última década, o crescimento ocorreu majoritariamente na modalidade de Ensino a Distância (EaD), cujas matrículas quadruplicaram entre 2019 e 2024.

No corpo docente do ensino superior, havia 958 professores com deficiência entre os 340.817 docentes em exercício em 2024, o equivalente a 0,28%.

No mercado de trabalho, a taxa de ocupação entre pessoas com deficiência de 14 anos ou mais é de 29,0%, enquanto entre pessoas sem deficiência chega a 55,8%. Entre pessoas com deficiência profunda, a taxa é de 21,2%.

O rendimento médio mensal do trabalho também apresenta diferença. Pessoas com deficiência ocupadas recebem, em média, R$ 2.053, enquanto pessoas sem deficiência recebem R$ 2.890. O primeiro valor corresponde a 71% do rendimento médio do segundo grupo. De acordo com os dados apresentados, pessoas com deficiência estão proporcionalmente mais concentradas em atividades com menores remunerações, como serviços domésticos, agropecuária e alojamento.

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