Na República das mentiras
Fernando Collor caiu sob pretexto de um Fiat Elba, Sergio Cabral foi desmoralizado pela imagem de uma festança de amigos na Europa com guardanapos na cabeça, Aécio Neves afundou, levando junto o PSDB e o centro democrático por um pedido de empréstimo aos donos da JBS, na época, de R$ 2 milhões.
Nenhum deles é santo, mas o fato é que as coisas mudaram e continuam mudando muito, principalmente em valores, presentes e generosidade de "amigos" complicados, mas também na cara de pau. Na República da mentira e dos "irmãos", tudo ficou mais fantástico, espetacular.
De Fiat Elba chegamos a jatos Legacy e helicópteros, as festas se espalham pelo mundo e, em vez de guardanapos brancos, são animadas por moças, "de preferência jovens", na proporção de seis para cada homem, e não tem esse negócio de empréstimo mixuruca de R$ 2 milhões.
Contratos, doações e "empréstimos" escalaram para até R$ 130 milhões, R$ 134 milhões... Não raro, recheados com cartões de créditos para filhos com limite de R$ 300 mil. Nada mal, dá para comprar uns presentinhos bem bacanas.
Nos tempos de Collor, não havia internet, celular, "nuvem" e aparelhos israelenses que, hoje, são tiro e queda para recuperar mensagens, vídeos e áudios que os amigos trocam, mas não querem que ninguém saiba, muito menos veja.
Mas os "amigos", espertos, descobriram como driblar o que eles reduzem a "perseguição política": operações policiais, provas e processos sólidos. E como driblam? Por exemplo, usando as tais "mensagens de visualização única", que evaporam assim que são lidas e não são rastreáveis.
Graças ao drible, um certo ministro do Supremo, para convencer seus pares e o distinto público de que as acusações contra ele eram falsas, escreveu que "não havia diálogo nenhum" entre ele e Daniel Vorcaro nos celulares. Como haveria diálogo, se as respostas, puft!, sumiram?
Esse ministro também negou ter usado aviões do banqueiro, até surgirem vídeos dele e de sua mulher descendo do jato de uma empresa da qual Vorcaro é sócio. Pego na mentira, o ministro ficou quieto e coube ao escritório de sua mulher confirmar o óbvio e tentar justificar o que não é óbvio.
Um dos favoritos à Presidência também negou ter pedido empréstimo a Vorcaro para um filme sobre o pai. Pela manhã, respondeu ao repórter rindo: "É mentira, de onde você tirou isso? É mentira, pelo amor de Deus". À tarde, vazou o áudio dele para o "irmão" Vorcaro. Deus foi citado em vão...
É curioso, aliás, como todo mundo é "irmão" de Vorcaro e todos os lados chamam as investigações de "perseguição política", a PF de partidária, os jornalistas de mentirosos e os adversários de "ladrões". E você, eleitor e eleitora, do que será que é chamado/a?
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