Super El Niño exige medidas
A manutenção de aceiros nos parques municipais, o reforço da atuação de caminhões-pipa no combate a possíveis focos de incêndio em áreas de vegetação protegida e o monitoramento de eventos climáticos pela Secretaria Municipal de Saúde (SMS) estão entre as medidas adotadas pela Prefeitura de Goiânia para enfrentar os impactos do Super El Niño. O fenômeno deve prolongar o período de estiagem, intensificar as ondas de calor e aumentar o risco de incêndios, trazendo desafios adicionais para a população e para a administração municipal.
No início de junho, O DAQUI mostrou que a Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (Semad) elaborou um planejamento para o período de estiagem deste ano baseado em monitoramentos que indicam uma probabilidade de 81% para a ocorrência de um fenômeno El Niño de forte intensidade, a maior dentro da classificação. Os sistemas de medição hidrológica e meteorológica do Estado apontam que a temperatura das águas do Oceano Pacífico Equatorial poderá registrar uma elevação de 2,2 °C, atingindo um patamar tecnicamente classificado como Super El Niño, por superar o limite de 2 °C de anomalia térmica.
Um estudo publicado no periódico científico Sustainable Cities and Society , em maio de 2026, mostrou que Goiânia é uma das cidades que mais devem sofrer com ondas de calor. No ranking global de risco de calor para cidades com mais de 1 milhão de habitantes, a capital goiana ocupa a 46ª posição entre as 50 cidades com maior nível de risco identificadas no estudo. Manaus, a capital do Amazonas, aparece na 27ª posição.
O meteorologista e pesquisador do Instituto de Física da Universidade Federal de Goiás (UFG), Angel Chovert, explica que a previsão é de um inverno com volume de chuva ligeiramente acima da média. "A partir de setembro, durante a primavera, em outubro, novembro e boa parte de dezembro, há altíssima probabilidade de chuva abaixo do esperado", afirma. Segundo ele, o período deverá ser marcado por ondas de calor e estiagem prolongada, com atraso no retorno das chuvas. Esse cenário amplia a janela de risco para queimadas que, embora geralmente tenham origem em ações humanas, se espalham com mais facilidade em condições de altas temperaturas e baixa umidade do ar. Para o início de 2027, a previsão é de chuvas de má qualidade, concentradas em tempestades intensas. "Isso provoca alagamentos e enchentes na cidade", diz.
Os especialistas ouvidos concordam que a adaptação a eventos climáticos extremos passa pelo aprimoramento dos sistemas de monitoramento e alerta; pela manutenção da limpeza urbana para reduzir os impactos das enchentes; e pela preservação da arborização, com investimentos em ações capazes de melhorar o microclima urbano, além de monitoramento da população em relação a episódios de desidratação. A arquiteta e urbanista Maria Ester de Souza aponta que, em curto prazo, a Prefeitura deve se atentar à saúde de idosos e crianças, grupos mais afetados por temperaturas extremas, preparando-se para uma possível alta na demanda por atendimentos e para evitar o desabastecimento de água em áreas com infraestrutura mais precária.
Em prazo maior, ela afirma que a solução passa pela melhoria do microclima urbano por meio de diversas ações, como o investimento em parques lineares. "Mas como vamos amenizar o calor da cidade, se todos os dias vemos notícias de árvores sendo removidas? Precisamos plantar árvores e ensinar uma geração inteira que a cidade precisa conviver com a vegetação e a água de forma mais respeitosa", diz Maria Ester.
O gerente de Combate às Mudanças Climáticas e Fomento à Política de Redução de Carbono da Agência Municipal do Meio Ambiente (Amma), Gabriel Tenaglia Carneiro, afirma que, diante do risco de incêndios gerado pela estiagem prolongada e altas temperaturas, equipes da agência atuarão durante a noite com caminhões-pipa nos parques da capital para combater possíveis focos. Ele ressalta, porém, que o principal problema relacionado ao fogo ainda está nos lotes baldios. "Pedimos atenção da população. Não descartem lixo nesses locais nem ateiem fogo", alerta.
A Amma também teve o projeto Zonas de Desenvolvimento Sustentável selecionado pelo programa Cidades Verdes Resilientes, do Ministério do Meio Ambiente. A iniciativa prevê soluções que devem melhorar o microclima urbano, o que deve ajudar, em médio e longo prazo, a arrefecer as ondas de calor.
Entre as soluções previstas no projeto estão a implantação de jardins de chuva, que favorecem a infiltração da água no solo, a construção de ciclovias e a criação de corredores verdes para conectar parques e outras áreas arborizadas. Segundo Gabriel, a meta é implantar 100 jardins de chuva na capital, sendo 30 ainda este ano. Estruturas semelhantes já foram construídas em gestões anteriores, mas atualmente apresentam problemas de manutenção do paisagismo. O projeto também prevê a implantação de 16 quilômetros de corredores verdes, dos quais cerca de 3 a 4 quilômetros já foram executados na região do Setor Oeste.
Em longo prazo, a Prefeitura aposta em iniciativas como a Agenda Mais Verde, apresentada neste mês pelo prefeito Sandro Mabel (UB), com foco na ampliação da infraestrutura verde da cidade. Entre os projetos estruturantes estão a recuperação de córregos, margens, nascentes e áreas de preservação permanente (APPs), com apoio de linhas de financiamento como as do Fundo Clima, do governo federal. Além disso, recentemente, a administração de Goiânia deu início aos procedimentos para a execução da segunda etapa do Programa Urbano Ambiental Macambira Anicuns (Puama 2). Esta fase do programa compreende a implantação de 6,48 quilômetros de parque linear.
SMS diz que monitora alertas
Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia, responsável pelas unidades de prontos de atendimento (UPAs) e centros de atenção integrada à saúde (Cais) da capital, informou que realiza o monitoramento contínuo de eventos climáticos por meio do programa Vigidesastres, desenvolvido pelas áreas de Vigilância Sanitária e Vigilância Ambiental. A iniciativa acompanha cenários e alertas relacionados a fenômenos climáticos em âmbito municipal, estadual e nacional, permitindo a adoção antecipada de medidas de prevenção e preparação da rede de saúde.
Com base nas informações monitoradas, a SMS emite alertas e orientações às autoridades competentes e à população, com o objetivo de reduzir riscos e evitar que eventos extremos, como ondas de calor, causem impactos mais graves à saúde.
Já a Secretaria de Estado de Saúde de Goiás (SES-GO), responsável pelos hospitais públicos instalados em Goiânia, comunicou que, por meio da Subsecretaria de Vigilância em Saúde (Suvisa), juntamente com as demais áreas técnicas, elaborou o Plano de Contingência para desastres relacionados ao clima, que será apresentado em breve.
Paralelamente, a área de vigilância de populações expostas a situações de desastres da SES-GO prepara notas informativas sobre prevenção aos impactos causados pelo Super El Niño, além de elaborar notas técnicas voltadas para orientação dos profissionais que atuam na rede pública de saúde em Goiás. Além disso, entre 7 e 9 de julho, a pasta vai participar da reunião preparatória do setor de saúde para o enfrentamento dos impactos do El Niño, convocada pelo Ministério da Saúde, em Brasília, no Distrito Federal.
Chuvas
Diante da previsão de um retorno de chuvas com episódios de tempestades, a superintendente de Obras e Serviços de Infraestrutura da Secretaria Municipal de Infraestrutura Urbana (Seinfra), Flávia Ribeiro Dias, explica que a pasta concentra suas ações durante a estiagem na limpeza de dispositivos de drenagem, como bocas de lobo e bueiros, para evitar entupimentos no período chuvoso. Em parceria com a Amma, também são realizados serviços de desassoreamento de rios e córregos.
Ela destaca ainda a construção de bacias de contenção, os chamados piscinões, na Marginal Botafogo, um dos pontos históricos de alagamento da capital. As obras devem receber investimento de R$ 120 milhões, com expectativa de licitação ainda em 2026. Além disso, a Seinfra busca solucionar problemas em outros pontos de alagamento da cidade, muitos deles provocados por redes de drenagem antigas e subdimensionadas. "Às vezes, para resolver um ponto de alagamento, precisamos intervir na drenagem de um bairro inteiro", afirma.
O coordenador municipal da Defesa Civil, Robledo Mendonça, destaca que há um trabalho integrado entre o órgão, a Amma e a Seinfra para prevenir situações de risco. Segundo ele, as ações incluem o mapeamento de áreas de risco e de mais de cem pontos sujeitos a alagamentos, o que permite o deslocamento de equipes quando necessário. O trabalho também conta com o sistema de alertas da Defesa Civil, incorporado no ano passado. "As reuniões do gabinete de crise também são permanentes, para avaliarmos constantemente os cenários", afirma.
Abastecimento público é monitorado por autoridades
De olho no Super El Niño, as autoridades redobram a atenção sobre a disponibilidade hídrica em Goiás. O superintendente de Recursos Hídricos e Informações Ambientais da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Goiás (Semad), Alan Mosele Tonin, diz que uma das bases para as decisões da pasta são informações precisas. Por isso, investem em estações hidrológicas e pluviômetros para acompanhar dados em tempo real.
Ações de fiscalização do uso da água também são rotina da pasta, especialmente na estiagem. "É preciso respeitar o uso prioritário da água: consumo humano, abastecimento público e dessedentação de animais."
Ele diz que, no último período chuvoso, grande parte do Estado teve chuvas abaixo do esperado, especialmente as regiões Norte e Sudoeste. Nesse cenário, as bacias consideradas críticas não são só as afetadas pela falta de chuva, mas principalmente as que enfrentam maior pressão pelo consumo de água.
O presidente da Saneago, que abastece a maioria dos municípios goianos, Ricardo Soavinski, explica que a companhia se antecipa aos períodos de estiagem com ações em municípios abastecidos por bacias mais sensíveis à seca ou com histórico de problemas de disponibilidade hídrica. Além do acompanhamento dos mananciais, diz ele, a empresa trabalha na redução de perdas e na adoção de alternativas para garantir o abastecimento.
Em municípios menores, as soluções podem ser adotadas de forma mais rápida, como com caminhões-pipa ou perfuração de poços para complementar o sistema. Já em cidades maiores, o processo é mais complexo, pelo volume de consumo e estrutura para assegurar a disponibilidade de água.
No Sudoeste, onde as chuvas ficaram abaixo da média e há alta demanda de água para consumo humano e agronegócio, a Saneago investe em ações, como a redução de perdas em Rio Verde. O Ribeirão Abóboras, principal manancial do município, tem acompanhamento permanente. Jataí tem novo ponto de captação para ampliar a segurança do sistema. No Norte, onde também houve chuva abaixo do esperado, Porangatu teve campanha de perfuração de poços. As estruturas podem ser usadas se houver baixa disponibilidade dos mananciais. A companhia também busca alternativas de captação em municípios como Iporá e Goianésia.
Na contramão do Estado, Goiânia teve chuvas acima da média, o que melhorou a vazão do Rio Meia Ponte, que abastece a capital. Neste sábado (20), a vazão era de 15.794,82 litros por segundo (L/s), enquanto a média histórica para a data é de 8.464,23 l/s. Segundo Soavinski, o volume traz mais tranquilidade diante da possibilidade de uma estiagem prolongada, mas não elimina a necessidade de monitoramento constante.
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