Pressão alta antes dos 30: casos entre jovens preocupam especialistas

Casos de hipertensão em adultos com menos de 30 anos desafiam a ideia de que a doença é exclusiva do envelhecimento e reforça a necessidade de prevenção
Por O Popular
Data: 22/06/2026
Yanna da Costa Oliveira: “Fiquei bastante assustada. Era um período muito delicado e eu tive muito medo” (Diomício Gomes / O Popular)

Aos 30 anos, a auxiliar administrativa Yanna da Costa Oliveira imaginava que as maiores preocupações da gravidez seriam as transformações naturais da gestação e a chegada do primeiro filho. Ainda no terceiro mês, um exame de rotina revelou uma alteração inesperada: a pressão arterial estava acima do normal. O acompanhamento médico se intensificou ao longo dos meses, mas, após o nascimento do bebê, os índices não voltaram ao padrão esperado. O diagnóstico de hipertensão permaneceu. "Fiquei bastante assustada. Era um período muito delicado e eu tive muito medo", lembra.

Até então, Yanna associava a doença a pessoas mais velhas e sabia pouco sobre suas causas. A descoberta reflete uma realidade que tem chamado a atenção de especialistas: a hipertensão arterial, tradicionalmente ligada ao envelhecimento, está cada vez mais presente entre adultos jovens. Sedentarismo, excesso de peso, estresse, alimentação inadequada e predisposição genética ajudam a explicar um fenômeno que preocupa médicos por aumentar o risco de enfarte, AVC e doenças cardiovasculares.

Dados do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), com base no Vigitel 2023, mostram que, entre beneficiários de planos de saúde de 18 a 39 anos, 6,8% já têm diagnóstico de hipertensão. Segundo o cardiologista Thiago Marinho, do Hospital Mater Dei Goiânia, os casos têm se tornado realmente cada vez mais comuns nos consultórios. Embora a hipertensão ainda seja mais frequente após os 50 anos, o diagnóstico vem sendo feito em pacientes jovens. O especialista alerta que o problema costuma evoluir de forma silenciosa, dificultando a identificação precoce da doença. "Se você não faz as aferições e não passa em consultas para realizar check-up, muitas vezes o diagnóstico não é realizado e a doença não é tratada de forma adequada", explica.

Quanto mais cedo a pressão elevada se instala, maior é o tempo de exposição aos riscos de complicações graves, como enfarte, AVC e comprometimento da função renal. Mas, entre pacientes jovens, a hipertensão também pode ser um sinal de alerta para outras doenças ainda não diagnosticadas. "Sempre que uma pessoa com menos de 30 anos recebe o diagnóstico de hipertensão arterial, deve-se investigar a presença de doenças renais", ensina o nefrologista Ciro Costa. Segundo ele, alterações nos rins estão entre as causas mais frequentes de pressão alta nessa faixa etária, especialmente casos de glomerulopatias, doenças genéticas renais e doença renal crônica.

A investigação costuma incluir exames relativamente simples, como dosagem de creatinina no sangue, exame de urina, pesquisa de microalbuminúria e ultrassonografia com Doppler das artérias renais. O cuidado é importante porque a relação entre hipertensão e rins funciona em mão dupla: doenças renais podem elevar a pressão arterial, enquanto a pressão descontrolada pode provocar danos progressivos ao órgão. "A hipertensão arterial é a segunda principal causa de doença renal crônica no mundo", destaca Ciro. Quando permanece sem diagnóstico ou tratamento por anos, a doença pode levar à perda irreversível da função renal e, nos casos mais graves, à necessidade de diálise ou transplante.

Mudança de hábitos

Especialistas apontam que o aumento dos casos de hipertensão entre jovens com menos de 30 anos está diretamente relacionado às mudanças no estilo de vida das últimas décadas. O consumo excessivo de alimentos ultraprocessados e ricos em sódio, o sedentarismo, o aumento da obesidade, o estresse constante e a privação de sono têm contribuído para que a pressão alta apareça cada vez mais cedo. Além disso, o uso frequente de álcool, cigarros eletrônicos e outras substâncias estimulantes também pode elevar o risco cardiovascular.

O cardiologista Vinícius Marques Rodrigues, que atende no Órion Complex, em Goiânia, explica que o sedentarismo e a obesidade provocam uma inflamação crônica no organismo que favorece o endurecimento das artérias e a elevação da pressão arterial. O especialista também chama atenção para o consumo frequente de energéticos, suplementos pré-treino, anabolizantes e outras substâncias estimulantes que podem aumentar a pressão, desencadear palpitações e favorecer arritmias. Para ele, a combinação desses fatores tem contribuído para o surgimento precoce não apenas da hipertensão, mas também de problemas como diabetes, colesterol elevado e doenças cardiovasculares. "Nos últimos 20 anos, aumentaram significativamente os casos de infarto e síndromes coronarianas agudas em jovens no Brasil e no mundo", alerta.

Dicas para manter a pressão sob controle

1. Reduza o consumo de sal e alimentos ultraprocessados

Produtos industrializados e refeições prontas costumam conter grandes quantidades de sódio, um dos principais fatores associados ao aumento da pressão arterial.

2. Pratique atividade física regularmente

O sedentarismo favorece o ganho de peso e contribui para alterações que aumentam a pressão arterial.

3. Evite energéticos, anabolizantes e estimulantes

O uso frequente de energéticos, suplementos pré-treino e anabolizantes pode elevar a pressão, provocar palpitações e aumentar o risco de arritmias e outras doenças cardiovasculares.

4. Controle o peso e mantenha hábitos saudáveis

O excesso de peso e a obesidade estão ligados a processos inflamatórios que favorecem o endurecimento das artérias e o surgimento precoce da hipertensão, além de diabetes e colesterol alto.

5. Faça check-ups e meça a pressão regularmente

A hipertensão costuma ser silenciosa. Consultas periódicas e aferições de rotina são fundamentais para identificar o problema precocemente e evitar complicações.

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