De 100 cidades mais afetadas por tarifaço, 2 estão em Goiás

Goiatuba e Goianésia, que exportam açúcar orgânico aos EUA, são as mais impactadas no estado por sobretaxas que somam 37,5%
Por O Popular
Data: 28/07/2026
Cidades goianas afetadas pelo tarifaço (Arte O Popular)

O estado de Goiás tem dois municípios na lista dos 100 mais impactados pelo tarifaço do governo americano , que chegou aos 37,5%: Goiatuba e Goianésia, que exportam muito açúcar orgânico para os Estados Unidos. A estimativa é que as indústrias do setor tentem buscar outros mercados, o que não deve ser uma tarefa nada fácil. De acordo com o levantamento feito pelo Estadão, com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e Amcham Brasil, cidades como Catalão e Goiânia também serão afetadas.

O governo de Donald Trump confirmou que diversos produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos enfrentarão uma nova tarifa de 12,5%. A decisão é resultado de uma investigação que teria concluído que o Brasil e outros países adotam práticas comerciais desleais ao não fiscalizarem adequadamente a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado.

A medida veio poucos dias após outra tarifa, de 25%, entrar em vigor. Na ocasião, a justificativa foi que o Brasil adota práticas que "oneram ou restringem" o comércio com o país. Entre os exemplos citados estão o Pix e a regulação de plataformas digitais. O resultado é uma alíquota total de 37,5% sobre parte dos produtos brasileiros.

Enquanto itens importantes para a economia americana ficaram isentos, como petróleo, café e carne bovina, produtos como calçados, máquinas, madeira e açúcar passam a enfrentar a tarifa máxima. O levantamento mostra que, além de açúcares e produtos de confeitaria, máquinas e equipamentos mecânicos, vendidos por Catalão e Goiânia, produtos químicos orgânicos, que saem de Anápolis e São Simão, são outros produtos impactados em Goiás.

No ano passado, das 140 mil toneladas de açúcar orgânico que foram vendidas para os Estados Unidos, 100 mil saíram de indústrias goianas. O presidente da Federação das Indústrias de Goiás (Fieg) e do Sindicato da Indústria de Fabricação de Açúcar no Estado (Sifaçúcar), André Rocha, informa que somente a cota de 150 mil toneladas de açúcar comum produzida no Nordeste continua pagando 25%. "Qualquer quantidade fora da cota terá de pagar 37,5%", alerta.

Mas ele alerta que também existe a possibilidade de redução da cota atual por conta da queda das importações pelos EUA. Rocha ressalta que, desde o início do tarifaço, o Brasil já conseguiu aumentar suas exportações de vários produtos para União Europeia e China em quantidades maiores do que perdeu. Mas, sem o mercado americano, Goiás também terá de disputar mercados pelo mundo com empresas de outros estados brasileiros.

Ele ressalta que é muito difícil colocar açúcar orgânico em outros mercados, por se tratar de um produto de nicho, com valor agregado alto, usado como matéria-prima para produção de alimentos orgânicos. "De longe, o maior mercado é o americano. Não consigo vender hoje para outros países, como Japão e Coreia. O mercado da União Europeia, que é o segundo maior, está fechado para o Brasil porque a taxa imposta lá é maior do que esses 37,5%", explica.

André Rocha lembra que a Colômbia tem acordo comercial específico de isenção e exporta tudo que consegue para a Europa, enquanto outros mercados já têm fornecedores. A expectativa é que o consumidor americano reduza o consumo para não pagar mais caro. "O vendedor brasileiro terá de abrir mão de margem, ou até vender açúcar orgânico como comum, perdendo dinheiro, porque a produção não se reduz de uma hora para outra".

Outro exemplo é o do minério vermiculita, que não foi citado no levantamento do Estadão, mas que também será muito impactado, por ter a grande maioria de suas exportações concentradas no mercado americano. "Desta vez, a lista de isenções veio grande. Vamos ver como ficará o andamento das negociações", diz o presidente da Fieg. Para ele, este não é o momento de o governo brasileiro adotar a política da reciprocidade, mas de negociação e equilíbrio, ajudando os setores prejudicados com políticas públicas.

A Associação Pró-Desenvolvimento Industrial do Estado de Goiás (Adial) diz que acompanha com preocupação a entrada em vigor da nova tarifa adicional imposta pelos EUA. Para a entidade, a medida amplia o ambiente de incerteza para o comércio internacional e compromete a competitividade de empresas que conquistaram espaço no mercado norte-americano ao longo de décadas.

Embora alguns produtos tenham permanecido fora da lista de sobretaxação, os impactos vão muito além das exportações diretamente atingidas. "Barreiras comerciais reduzem a previsibilidade dos negócios, afetam investimentos, pressionam custos e repercutem em toda a cadeia produtiva, alcançando fornecedores, transportadores, produtores rurais e trabalhadores", alerta o presidente da Adial, Edwal Portilho.

Para Goiás, o tema merece atenção especial, pois o estado consolidou-se como um dos principais polos agroindustriais do País, com exportações de US$ 13,4 bilhões e superávit comercial superior a US$ 8 bilhões em 2025. Os EUA figuram entre os principais destinos das exportações goianas, com destaque para carnes, produtos minerais e açúcar. Portilho ressalta que a relação comercial entre Goiás e o mercado norte-americano vinha apresentando crescimento consistente e qualquer restrição é um fator de preocupação para o setor produtivo.

Cadeia

A Adial ressalta que o impacto não deve ser analisado apenas pelo volume financeiro das exportações. "Quando uma indústria perde competitividade, toda a cadeia sente os reflexos. Menor produção significa menos demanda por insumos, embalagens, transporte, armazenagem, tecnologia, energia e serviços. O resultado pode comprometer investimentos, renda e geração de empregos", diz.

A manutenção do Brasil fora das recentes flexibilizações concedidas a outros parceiros comerciais dos EUA cria uma desvantagem competitiva adicional para as empresas brasileiras, justamente em um momento de expansão das exportações goianas. Por isso, a Adial defende que o Brasil mantenha abertos todos os canais de diálogo com o governo norte-americano.

Para Portilho, a diplomacia econômica deve prevalecer sobre medidas que ampliem a insegurança para empresas de ambos os países. "Ao mesmo tempo, é fundamental fortalecer políticas de diversificação de mercados, ampliar acordos comerciais e criar mecanismos de apoio às empresas eventualmente impactadas", adverte. Outro ponto considerado estratégico é a necessidade de o Brasil comunicar melhor ao mercado internacional a realidade da produção nacional.

Isso porque Goiás possui uma agroindústria moderna, altamente tecnificada, comprometida com padrões ambientais, sanitários e trabalhistas reconhecidos internacionalmente. O presidente da Adial lembra que, em um cenário global de crescente competição, produzir bem já não é suficiente. É preciso comunicar com transparência, dados e credibilidade. Segundo ele, o maior risco do atual cenário é a perda de previsibilidade para quem investe e produz.

O maior prejuízo não é apenas a tarifa. É a insegurança que ela gera. "A indústria trabalha com planejamento de longo prazo. Quando regras mudam abruptamente, toda a cadeia produtiva é afetada. Precisamos fortalecer a diplomacia econômica, ampliar mercados e preservar relações comerciais construídas ao longo de décadas. O setor produtivo quer previsibilidade para continuar investindo, produzindo e gerando empregos", adverte.

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