Caiado destaca linha dura em promessas polêmicas

Nova medida anunciada na convenção reforça aposta em propostas focadas no discurso de “tolerância zero” na segurança; especialistas apontam corrida por debate ideológico
Por O Popular
Data: 28/07/2026
Presidenciável Ronaldo Caiado (PSD): propostas para “nacionalizar” o modelo de segurança pública feito em Goiás (Fábio Lima/O Popular)

O candidato à Presidência da República e ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), acumula promessas polêmicas em busca de protagonismo no debate nacional ao longo da pré-campanha, desde o lançamento do projeto ainda em abril de 2025. Confirmado para a disputa na convenção nacional do partido no último domingo (26), o goiano usou os primeiros discursos como presidenciável para retomar a defesa de “tolerância zero” em diferentes aspectos da segurança pública, com estratégia focada no debate ideológico e no convencimento dos eleitores de direita.

Para especialistas ouvidos pelo POPULAR , a plataforma predominante voltada à de segurança pública tem capacidade de ampliar a mobilização em torno da campanha, principalmente junto ao público ainda dominado por apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e, consequentemente, da candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL). De acordo com os cientistas políticos, Caiado tem conseguido driblar os apontamentos de inconstitucionalidades das promessas com o argumento de que terá ferramentas para exercer o presidencialismo, caso seja eleito.

Os analistas ainda definem que cada promessa lançada no debate nacional, principalmente em contraposição aos principais adversários, pode contribuir na missão de gerar crescimento gradativo nas intenções de voto para se tornar alternativa viável para a disputa do segundo turno, apesar das dificuldades de estrutura e conhecimento junto à população. A aposta depende da defesa de diferenciação de Flávio e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) por meio de alegações sobre credibilidade e experiência.

A última promessa, apresentada no evento que oficializou sua candidatura à Presidência, pretende deixar mais rígidas as regras para o combate à violência contra a mulher. A medida prevê o confisco dos bens de criminosos que cometam feminicídio ou agressão e violência contra mulheres, com a transferência direta desse patrimônio para a vítima. Segundo o candidato, o objetivo é garantir que o agressor seja punido financeiramente, além de cumprir a pena de prisão, atacando diretamente a cultura da impunidade.

Além disso, o plano de governo deverá prever a proposta de endurecimento no sistema penal, exigindo que os condenados por esses crimes cumpram pelo menos 90% da pena declarada, sem direito a reduções. A intenção seria assegurar a dignidade das mulheres e o direito de transitar livremente sem medo. A proposta busca desestruturar o patrimônio do criminoso como forma de reparação financeira e suporte para quem sofreu violência.

Para o cientista político Pedro Pietrafesa, a promessa representa aceno às mulheres e tenta romper o teto histórico de rejeição que candidatos de direita enfrentam junto ao eleitorado feminino. O especialista lembra que a proposta ocorre justamente no cenário de dificuldades adicionais à campanha de Flávio Bolsonaro junto a esse público, depois da crise pública com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro.

“Essas propostas do Caiado não se diferenciam do que já vinha sendo propagado durante a pré-campanha, com o objetivo de se diferenciar do Flávio Bolsonaro e tentar conquistar eleitores e eleitoras mais à direita para chegar ao segundo turno. Essas são propostas de campanha que buscam atender a uma estratégia de comunicação política para conquistar esses votos. A questão é que o eleitor vai ouvir muito esse discurso de linha dura, que também já é adotado pelos outros nomes da direita”, avalia o professor da PUC/GO.

“Boa parte dessas propostas é inconstitucional, apesar da ampla aceitação. O que a campanha do Caiado tenta mostrar é que, diferentemente do Flávio Bolsonaro, ele sim tem as condições administrativas e a competência para realmente implementar esse tipo de promessa”, completa Pietrafesa.

Para o professor da UFG, Guilherme Carvalho, a estratégia de Caiado tem potencial junto ao público de direita, mas depende da execução da estratégia. “O ex-governador tem um discurso para pegar o que o bolsonarismo capturou lá atrás, mas ele ainda não vocaliza essa dor do brasileiro com muita propriedade. Apostar em um discurso de deixar a segurança pública mais letal pode furar a bolha na extrema direita, mas só ter o discurso não basta. É preciso saber comunicar isso, já que o Caiado tem o Renan Santos (Missão) que está fazendo isso de uma forma muito mais competente”, considera.

Viabilidade

A última promessa relacionada ao confisco de bens de agressores de mulheres reforça o discurso adotado por Caiado de endurecimento das regras penais . O candidato defende medidas como a proibição de visitas íntimas para presos de facções e a expropriação de bens de criminosos, além de um regime de monitoramento e isolamento severo de lideranças dentro do sistema prisional.

Ainda na segurança, o goiano mantém como mantra da campanha a defesa pela tipificação das facções criminosas como organizações terroristas, seguindo decisão do governo dos Estados Unidos, anunciada em maio, de incluir as facções brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) à lista de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO). A Câmara dos Deputados e o Senado rejeitaram a classificação em fevereiro, na discussão do Projeto de Lei Antifacção.

Baseado no modelo aplicado em Goiás, Caiado também promete nacionalizar o modelo de segurança pública baseado no enfrentamento e criticado por organizações de direitos humanos. A promessa de “tolerância zero” contra o crime segue o discurso de que em um eventual governo, “se bandido reagir, a polícia vai cumprir seu papel”.

O ex-governador ainda reforça na campanha o posicionamento adotado na gestão estadual contra a instalação de câmeras nos uniformes de policiais militares e prometeu não orna-las obrigatórias no âmbito federal. Além dos avanços da política do governo federal, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou, em maio de 2025, a obrigatoriedade do uso de câmeras corporais por policiais, especialmente para as atuações estruturantes nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

Já a proposta de suspender benefícios de programas sociais a pessoas condenadas por invasão à propriedade foi apresentada durante audiência da CPI do MST, em maio de 2023.

Ícone Mais Notícias
Esteja sempre atualizado sobre os principais acontecimentos