Novos desgastes impactam candidaturas do PL em Goiás

Caso do Banco Master e novo tarifaço dos EUA, em meio ao debate presidencial, terão reflexo em especial na chapa majoritária de Wilder Morais e Gustavo Gayer, veem analistas
Por O Popular
Data: 05/06/2026
Gustavo Gayer e Wilder Morais em ato bolsonarista: pesquisas mostram efeito das crises na candidatura de Flávio (Wesley Costa / O Popular)

A estruturação de projetos majoritários do PL para a disputa das eleições de outubro em Goiás, com sustentação no discurso bolsonarista, sofre o impacto do acúmulo de desgastes sofridos pela base do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) no debate presidencial. Para analistas ouvidos pelo POPULAR , os últimos embates sobre as ameaças do governo dos Estados Unidos ao Pix e a possibilidade de novo tarifaço, somados ao envolvimento de Flávio Bolsonaro (PL) com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, tornam "mais difícil" a missão de construir projetos competitivos no estado.

A regionalização das complicações enfrentadas pela família Bolsonaro, segundo os especialistas, ocorre por conta da ausência de legado próprio dos principais pré-candidatos do PL em Goiás para fidelizar apoios dentro e fora do público de extrema-direita. A avaliação aponta que o senador e pré-candidato ao governo, Wilder Morais, assim como o deputado federal e pré-candidato ao Senado, Gustavo Gayer, alcançaram suas vitórias eleitorais em 2022 amparados exclusivamente pela influência do ex-presidente.

"Se a onda bolsonarista já teria dificuldade de reverberar em Goiás, os atuais problemas tornam a vida de Wilder e Gayer, além dos outros nomes do PL e da extrema direita, muito mais difícil aqui no estado. São nomes, inclusive, com pouco carisma próprio, com pouca base social própria e poucas obras próprias. Eles crescem na esteira do bolsonarismo e, se esse movimento tem dificuldades em âmbito nacional, a situação eleitoral deles vai ser muito mais difícil esse ano em Goiás", analisa o cientista político e professor da UFG, Francisco Tavares.

O professor de ciências sociais da PUC/GO, Pedro Pietrafesa, considera que o possível enfraquecimento dos projetos majoritários da extrema-direita favorecem o grupo liderado pelo governador Daniel Vilela (MDB) e o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD). A migração de apoios iria em direção da direita que, ao longo dos últimos 30 anos, se opuseram à base do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e venceram eleições ao Palácio das Esmeraldas.

"Em Goiás, os candidatos à direita, historicamente, tiveram mais votos e vitórias ao governo estadual. Desde o período de gestões do MDB, passando pela época do PSDB e agora com o Ronaldo Caiado. Então, o fluxo de votos sai do bolsonarismo para o nome mais vinculado a esse espectro ideológico junto ao eleitor de direita, justamente onde Daniel Vilela está se posicionando no estado", avalia.

"Então, a campanha do Daniel ficaria ainda mais forte com o desgaste do PL e com um candidato bolsonarista mais enfraquecido, até porque ainda existe resistência e rejeição ao nome do ex-governador Marconi Perillo (PSDB)", aponta Pietrafesa.

Os projetos do PL em Goiás podem acompanhar os desgastes da pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, que é apontado como o provável grande perdedor com as novas ameaças comerciais do presidente americano Donald Trump ao Brasil, avaliam os cientistas políticos. As ameaças ao Pix e de novas tarifas retaliatórias de 25% contra produtos brasileiros devolvem ao presidente Lula o discurso de soberania nacional que fez subir sua aprovação em meados de 2025.

Tarifaço

O governo norte-americano concluiu uma investigação comercial iniciada contra o Brasil em julho de 2025, com a avaliação de que algumas práticas brasileiras são "irrazoáveis" e "oneram ou restringem o comércio dos EUA". O documento propõe um novo tarifaço de 25% contra produtos brasileiros e traz o Pix entre as práticas consideradas pelo governo americano como abusivas. Eventuais medidas a serem tomadas a partir da apuração serão discutidas entre os países nas próximas semanas.

Enquanto Lula busca surfar na defesa da soberania, o efeito para Flávio é o oposto, depois de uma semana em que ele buscou mostrar ter influência sobre a Casa Branca, ao se reunir com Donald Trump pouco antes do anúncio da decisão dos EUA de classificar as facções criminosas PCC e Comando Vermelho como terroristas. A movimentação buscava criar uma agenda positiva para Flávio.

Pouco depois do anúncio da nova ameaça de tarifaço, o senador tentou se distanciar da medida do governo americano, publicando vídeo nas redes sociais em que diz que pediu a Trump que não taxassem produtos brasileiros. "Sempre defendi as empresas brasileiras e, em qualquer oportunidade que tiver, vou continuar a defender nosso setor produtivo. Pedi expressamente ao presidente Trump para não taxar nossas empresas. Tarifa não é solução", alegou.

Dark Horse

O efeito eleitoral positivo ao petista se soma às dificuldades enfrentadas pelo filho 01 do ex-presidente nas últimas três semanas, desde que foram divulgadas trocas de mensagens, áudios, ligações e até reunião presencial do senador com o então dono do Banco Master, Daniel Vorcaro. Nas conversas, realizadas antes e depois da primeira prisão do ex-banqueiro, Flávio mostrou intimidade e pediu dinheiro para bancar o filme "Dark Horse", que conta a trajetória de Jair Bolsonaro.

O tema pode apresentar ainda mais dificuldades para o pré-candidato, já que a nova proposta de delação premiada de Vorcaro terá um capítulo dedicado ao patrocínio para o filme. Ele entregou a nova versão da delação nesta semana e a Procuradoria-Geral da República (PGR) e a Polícia Federal deverão analisar documentos e elementos probatórios levados pela defesa do banqueiro. A investigação quer descobrir em que termos teria sido ofertado o patrocínio, além de rastrear a origem e o destino dos valores milionários declarados para a obra, que chegariam a pelo menos R$ 61 milhões.

"Com certeza o desgaste do Flávio Bolsonaro e do bolsonarismo de modo geral pode impactar as eleições locais, principalmente as candidaturas majoritárias do PL. Nesse tipo de disputa, é necessário um grupo maior de eleitores, já que não necessariamente existe uma maioria bolsonarista no eleitorado. Os pré-candidatos da extrema-direita vão precisar de eleitores independentes, além daqueles que optam por um candidato simplesmente por ser bolsonarista", avalia o professor Pedro Pietrafesa.

Já o professor da UFG, Guilherme Carvalho, relativiza o impacto dos desgastes nacionais na estruturação de projetos locais, ao menos no que se referente à construção das pré-candidaturas de extrema-direita junto à bolha do chamado "bolsonarismo raiz". "Os impactos desse caso como um todo, não devem ser tão problemáticos, ao menos aos olhos daquele eleitor mais fiel do bolsonarismo", considera Carvalho.

Para Francisco Tavares, a possibilidade de ampliação das eventuais candidaturas bolsonaristas encontram entrave na força política em torno da liderança de Ronaldo Caiado, que ocupa mais espaço na direita e centro-direita. "Como líder, o Caiado se comporta como um dique a impedir qualquer tipo de onda da extrema-direita, que acontece quando um público fora daqueles cerca de 20% de ultra-extremistas acaba aderindo, por entender que ela é mais viável. Isso, provavelmente, não vai acontecer aqui porque o ex-governador ainda representa essa alternativa da direita e da centro-direita", aponta.

"Isso significa que uma onda, como a que aconteceu, por exemplo, na eleição municipal em Goiânia, quando a extrema-direita conseguiu avançar e chegar ao segundo turno, ou ainda como aconteceu com a eleição do Wilder ao Senado em 2022, não deve ter lugar aqui. O PL com os desgastes, inclusive suas candidaturas proporcionais, vai ter dificuldades em Goiás", diz.

"A possibilidade dessa onda bolsonarista acontecer em Goiás é prejudicada pelos escândalos envolvendo a relação entre o Daniel Vorcaro e o Flávio Bolsonaro, de um lado, e agora toda essa relação do bolsonarismo com o Trump, prejudicando a economia brasileira. De fato, as pesquisas, principalmente Genial/Quest, mostraram como esse tipo de embate foi contraproducente do ponto de vista da popularidade da extrema-direita", afirma Francisco Tavares.

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