Ligações spam aumentam e causam até prejuízos para usuários
Os usuários de telefones celulares têm sido 'bombardeados' com ligações diárias vindas dos chamados números spam, linhas telefônicas utilizadas para chamadas ou mensagens automáticas indesejadas, geralmente focadas em telemarketing agressivo ou em golpes. Um levantamento da DMA (Digital Made Accessible) mostra que mais da metade dos brasileiros recebe chamadas indesejadas todos os meses e que o volume de ligações de spam cresceu 12% em 2025 no Brasil e 3,4% em Goiás em relação a 2024.
Em alguns estados, a incidência de tentativas de golpe varia entre 14% e 28%. Os dados também indicam um nível crescente de sofisticação: 82% dos fraudadores se passam por mais de uma empresa e surgem, em média, 400 novos números suspeitos por mês. A DMA desenvolveu uma solução que identifica e pode até bloquear números e chamadas maliciosas, como tentativas de golpe, utilizando inteligência artificial (IA).
A solução já está em mais de 150 milhões de aparelhos celulares utilizados por clientes dos parceiros da DMA. A empresa tem atuação b2b e seus clientes instalam a tecnologias nos aplicativos usados em seus negócios de vários segmentos, como redes varejistas, operadoras de telefonia e instituições financeiras. O vice-presidente de Tecnologia e Inovação & CISO da DMA, Adrian Galeti, ressalta que a insistência de um volume alto de chamadas recebidas diariamente traz um grande incômodo para muita gente.
Ele conta que o mercado financeiro é o principal cliente da solução, justamente porque há um uso muito grande de marcas de bancos em tentativas de golpe. As redes varejistas são outro alvo frequente. Desde janeiro de 2025, com a entrada da solução, a empresa já acumula mais de 333 milhões de proteções contra golpes. Cerca de 10% de todas as chamadas monitoradas e bloqueadas por tentativas de golpe são de Goiás e do Distrito Federal.
"Nossos clientes são grandes empresas de atuação nacional e, nos últimos 12 meses, protegemos 13% da população brasileira, atuando na prevenção. Quando temos certeza de que é golpe, bloqueamos ligação antes do cliente atender", conta Galeti. Quando a chamada é identificada como suspeita, é feita uma pesquisa para confirma se era ou não tentativa de golpe. Todos os meses, 400 novos números são identificados e o sistema é sempre aperfeiçoado para detectar novas formas de golpe.
Eduardo Nery CEO da Every Cybersecurity empresa líder em ciberseguranca do Brasil, ressalta que nem todo spam é um golpe. Sua característica é o envio de mensagem para um grupo grande pessoas para fazer uma propaganda de um produto ou empresa. Mas boa parte deles hoje tem característica de "fishing" onde o um golpista pede para a pessoa clicar em algo. "Isso leva para um site falso ou instala um programa ou vírus para fazer conexão tecnológica com os fraudadores", alerta.
As artimanhas usadas pelos golpistas são váriadas. "É sempre algo assim: você tem de fazer isso agora por determinada situação, como um pedido de pix, até prometendo retorno com valor maior", diz Nery. Uma das ferramentas usadas é o medo, quando ele diz que está com seu filho, por exemplo, e se você não transferir um valor por pix, haverá consequências.
Mas também existe a utilização da confiança. "Me ligaram do número do banco que eu movimento. Uma pessoa muito bem preparada para fazer este tipo de fraude, treinada e com português muito bom. Fiquei 20 minutos com ela no telefone e em 15 deles ainda tive dúvida se era ou não fraude", conta o executivo. Essa relação de confiança é uma técnica se chama "engenharia social", usada para ludibriar a pessoa e obter as informações que vão beneficiar o golpista.
Golpes
A costureira Maria Aparecida Xavier conta que já sofreu várias tentativas de golpes pelo celular. Em uma delas, o golpista tentou se passar por uma de suas filhas que passava uma temporada no Araguaia. Ela teria enviado uma suposta mensagem pedindo R$ 1.995 emprestados para resolver um problema urgente. "Era o WhatsApp com a foto dela e me chamando de mãe. Mas estranhei porque ela não costuma lidar com coisas de dinheiro. Somente o marido. Tentei ligar, mas não consegui falar com ela", lembra.
Maria Aparecida conta que respondeu ao golpista que não tinha nenhum dinheiro na conta, só o limite do cheque especial. Mas ele insistiu que ela enviasse o dinheiro, que seria devolvido no mesmo dia. "Mas fiquei intrigada dela estar pedindo dinheiro pra mim e liguei para meu genro, que logo disse se tratar de uma tentativa de golpe. Quase fiz a transferência. Foi por muito pouco", lembra.
Mas Maria Aparecida já recebeu outras tentativas de golpe. Em uma delas, a pessoa ligou exigindo que seu filho devolvesse com urgência um pix de R$ 250 feito por engano na conta dele, com ameaças. "Fiquei muito assustada com aquilo e resolvi ligar direto pra ele para tomar satisfações e ele também me disse que se tratava de um golpe", conta a costureira.
Depois de tantas tentativas, ela garante que ficou bem mais atenta a mensagens e ligações que recebe. "Minha filha me disse que tudo isso aconteceu porque deixei meu número de telefone no Facebook. Até resolvi sair da rede social para evitar problemas", destaca.
Boa parte das vítimas são idosos, que são mais frágeis, graças ao vazamento constante de listas do INSS. Em Brasília, por exemplo, pessoas que moram no Plano Piloto e Lago Sul são mais visadas para este tipo de fraude pelo nível de renda. Por isso, Eduardo Nery adverte que é preciso desconfiar de tudo. Um exemplo é alguém que liga oferecendo vantagens, como um produto bem mais barato que a média do mercado ou até dinheiro fácil. "Essa ação de golpistas é meio padrão, que é o que as pessoas caem".
Outra dica é usar senhas consideradas fortes, com caracteres especiais, números, letras maiúsculas e minúsculas, nos serviços usados na internet. Também é importante ter o duplo fator de autenticação no WhatsApp, o que é simples, mas as pessoas normalmente não usam, pois o golpista pode utilizar o número de uma pessoa em outro aparelho. Também é importante não clicar em links suspeitos. "Se não é e-mail de alguém que você conhece ou está esperando, faça uma verificação antes", alerta o especialista em cibersegurança.
A pessoa também deve evitar acessar redes desconhecidas, como de praças, aeroportos, rodoviárias e restaurantes, e não dar a senha de acesso à configuração do roteador de internet em casa para ninguém, apenas a de acesso ao wifi. "Por ele, passam todos os seus acessos, que podem ser desviados para outros sites", explica Nery.
Cada vez mais o mundo é digital e a chegada da inteligência artificial (IA) mudou todas as referências anteriores. Hoje, os fraudadores fazem parte de crime organizado e, muitas vezes, estão instalados em ambientes luxuosos. "Com a chegada da Starlink, você acessa a internet de qualquer lugar do mundo e com conexão rápida. Eles compram dinheiro digital e, a partir dele, drogas e armas. Compensa muito mais um crime digital do que assaltar um carro forte e correr o risco de levar um tiro", destaca o especialista.
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