Quando tudo se encaixa: a realidade de quem descobre transtornos na fase adulta

Diagnóstico tardio de transtornos como TDAH e autismo transforma a forma como adultos compreendem a própria história e lidam com as limitações
Por O Popular
Data: 20/04/2026
Elessandra Cristina de Oliveira fazia acompanhamento psiquiátrico com foco em ansiedade e depressão, sem um diagnóstico conclusivo

Impulsividade, necessidade constante de movimento e uma sensação persistente de não se encaixar acompanharam a psicóloga Elessandra Cristina de Oliveira, de 46 anos, por toda a vida. As peças só se encaixaram este ano, com o diagnóstico de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH). "Desde criança, eu me percebia diferente, mas foi durante meu trabalho em uma clínica especializada em neurodivergência que a ficha realmente caiu. Ao me conectar com as crianças e suas histórias, eu me vi refletida nelas e lembrei da minha própria infância", conta.

Até então, Elessandra fazia acompanhamento psiquiátrico com foco em ansiedade e depressão, sem um diagnóstico conclusivo. No início deste ano, decidiu procurar uma neurologista para entender seu quadro. A trajetória dela repete um padrão que especialistas reconhecem com frequência crescente em diagnósticos tardios de transtorno do espectro autista (TEA) e TDAH: sintomas subestimados por décadas, interpretados como traços de personalidade, e uma sensação de inadequação que atravessa a vida escolar, profissional e afetiva. A visibilidade do tema ganhou novo impulso recentemente, quando a cantora Ana Castela e a atriz Letícia Sabatella revelaram ter recebido, já na vida adulta, diagnósticos de TDAH e autismo, respectivamente.

Para a neurologista Roussiane Gaioso, da Unimed Goiânia e especialista em transtornos do neurodesenvolvimento, o atraso no diagnóstico tem uma explicação clínica clara. "Muitos adultos com TDAH, por exemplo, desenvolvem estratégias compensatórias e conseguem manter bom rendimento às custas de grande esforço mental. Isso mascara o quadro e adia o diagnóstico. O prejuízo aparece como sobrecarga, desorganização, esgotamento emocional e queda de desempenho quando a rotina se torna mais complexa", afirma. Na prática, o alto desempenho, inclusive acadêmico, não exclui o transtorno, apenas o torna menos visível.

Do ponto de vista neurológico, o TDAH envolve os circuitos frontoestriatais, ligados à atenção, organização e controle de impulsos, e alterações na rede de modo padrão, que permanece hiperativa e dificulta o foco. O resultado são distração frequente, dificuldade de planejamento, inquietação interna e falhas de autorregulação, sintomas que, nos adultos, costumam ser mais sutis. Já o TEA envolve um perfil neurobiológico distinto, ainda que com algumas interseções funcionais com o TDAH. Do ponto de vista neurológico, o transtorno está associado a diferenças na conectividade cerebral, especialmente em redes responsáveis por processamento social, linguagem e integração sensorial, como o córtex temporal superior, a amígdala e regiões do córtex pré-frontal.

A avaliação do TDAH, segundo Roussiane , combina anamnese detalhada, histórico desde a infância, exclusão de condições que imitam o quadro, como ansiedade, depressão, distúrbios do sono e alterações hormonais, e testes neuropsicológicos quando necessário. Mulheres costumam chegar ao diagnóstico mais tarde do que homens, e a neurologista Izadora Corrêa Resende, do Centro Estadual de Reabilitação e Readaptação Dr. Henrique Santillo (Crer), explica a razão. Enquanto nos homens predominam hiperatividade e impulsividade, sinais mais visíveis, nas mulheres os sintomas tendem a se expressar pela desatenção e pela internalização das dificuldades, reforçados por estratégias compensatórias que reduzem ainda mais a visibilidade do quadro. "Fatores hormonais também podem modular a expressão dos sintomas ao longo da vida", diz.

O efeito prático é que muitas mulheres só são diagnosticadas na vida adulta, quando as demandas aumentam e as compensações deixam de ser suficientes. Izadora ressalta ainda que o diagnóstico em adultos não se apoia em sinais isolados, mas na reconstrução da trajetória do paciente. É preciso identificar sintomas desde a infância, mesmo que reconhecidos apenas retroativamente e comprovar impacto funcional em diferentes contextos. "Também é fundamental excluir outras condições que podem mimetizar o quadro", afirma.

Já o número de diagnósticos de autimos em adultos tem crescido nos últimos anos, impulsionado pela maior conscientização e pela identificação de formas mais leves, segundo dados do IBGE, que apontam 2,4 milhões de brasileiros diagnosticados. De acordo com a médica pediatra Ana Márcia Guimarães, que atende no Órion Complex, em Goiânia, muitos pacientes chegam ao consultório após anos de exaustão social e dificuldades nas relações, sem compreender o próprio funcionamento, o que pode levar a ansiedade, depressão e até maior risco de suicídio. Embora o diagnóstico tardio traga alívio ao reorganizar a trajetória pessoal, especialistas alertam para a importância da avaliação clínica, já que o autodiagnóstico pode confundir o TEA com outras condições, e destacam que a Lei 15.256/2025 fortalece o acesso ao diagnóstico em adultos e idosos, ampliando também o alcance a direitos previdenciários e assistenciais ainda pouco conhecidos.

Não é epidemia

 

O aumento dos diagnósticos de TDAH em adultos não significa uma epidemia, alerta a psiquiatra Izabela Saraiva. "Houve ampliação do conhecimento sobre o transtorno ao longo da vida e maior acesso à informação, o que faz mais pessoas buscarem avaliação", explica.

O critério clínico central, segundo ela, não é a presença ocasional de desatenção, mas o impacto funcional persistente. "TDAH não é desorganização ocasional, mas dificuldade contínua de manter atenção, concluir tarefas e sustentar rotinas, mesmo com esforço."

Diferenciar o transtorno de ansiedade, depressão ou burnout exige análise detalhada. "No TDAH, os sintomas são mais estáveis e costumam estar presentes desde a infância. Já nos outros quadros, a dificuldade de concentração é, em geral, secundária ao estado emocional ou ao contexto", diferencia Izabela. A coexistência entre condições é comum, o que torna o diagnóstico mais complexo e exige avaliação clínica criteriosa.

No campo subjetivo, o diagnóstico tardio também reorganiza a forma como o paciente lê a própria história. O psicólogo Bruno Garrote descreve uma reação comum entre os pacientes que recebem o diagnóstico já adultos. "Há um misto de alívio, por entender que não era falta de esforço, e frustração por anos de autocrítica." Comportamentos como procrastinação, esquecimentos e desorganização, que a pessoa carregou como falhas de caráter, passam a ter outra explicação. "O problema não é só o comportamento, mas o significado que a pessoa dá a ele ao longo da vida", afirma.

TDAH

O que é

Transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por desatenção, impulsividade e dificuldades de organização e autorregulação, com início na infância e impacto ao longo da vida.

Como é o diagnóstico

Clínico, feito por neurologista ou psiquiatra, com base em anamnese detalhada, histórico desde a infância, impacto funcional em diferentes contextos e exclusão de condições como ansiedade, depressão e distúrbios do sono.

Qual o tratamento

Combina medicação, quando indicada, com intervenções comportamentais, organização de rotina, uso de estratégias externas como agenda e lembretes, psicoterapia e ajustes no estilo de vida.

Autismo (TEA)

O que é

Transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por diferenças na comunicação social, nos padrões de comportamento e no processamento sensorial, com início na infância e manifestações ao longo de toda a vida, em diferentes níveis de suporte.

Como é o diagnóstico

Clínico, realizado por neurologista, psiquiatra ou equipe multidisciplinar, com base na observação do comportamento, histórico do desenvolvimento, avaliação da comunicação e interação social, além da presença de padrões restritos e repetitivos. Envolve instrumentos padronizados e a exclusão de outras condições que possam explicar os sinais.

Qual o tratamento

Baseado em intervenções individualizadas, com foco em desenvolvimento de habilidades sociais, comunicação e autonomia. Pode incluir terapias comportamentais, fonoaudiologia, terapia ocupacional com integração sensorial, suporte educacional e orientação familiar. Medicação pode ser utilizada em casos específicos para sintomas associados, como ansiedade, irritabilidade ou hiperatividade.

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