Fadiga ocular pode comprometer rendimento no trabalho
O expediente termina, mas o desconforto fica. Olhos ardendo, visão embaçada, dor de cabeça e tensão no pescoço podem parecer consequências inevitáveis de um dia diante do computador. Não são. Quando esses sintomas se repetem, a forma como a tela está inserida na rotina de trabalho passa a fazer parte do problema. É o que ocorre na chamada Síndrome da Visão Computacional, quadro associado ao uso prolongado de dispositivos eletrônicos sem pausas e a condições inadequadas de iluminação e ergonomia.
Um estudo divulgado pela Taylor & Francis, com 66 mil participantes de 20 países, entre eles o Brasil, aponta aumento de 66% a 69% no número de pessoas com a síndrome entre 2023 e 2026. Entre as queixas estão fadiga e desconforto ocular, ressecamento ou lacrimejamento excessivo, sensibilidade à luz, visão turva ou dupla, dores de cabeça e enxaquecas.
Os efeitos não param nos olhos. Horas de trabalho diante de um monitor mal posicionado podem levar o usuário a inclinar o corpo, projetar a cabeça para frente ou permanecer em uma postura inadequada por períodos prolongados. A conta aparece também no pescoço, nos ombros e nas costas.
O presidente da Sociedade Goiana de Oftalmologia (SGO), Leiser Franco, chama atenção ainda para os reflexos sobre o próprio rendimento profissional. “Sem contar com a sobrecarga mental resultando em queda de concentração, aumento da irritabilidade, dificuldades de sono, sintomas de estresse e ansiedade”, alerta o presidente da SGO.
Menos piscadas, mais desconforto
Há uma mudança discreta durante o trabalho que ajuda a explicar parte dos sintomas. Quando a atenção fica concentrada no monitor, a frequência das piscadas diminui. Como piscar ajuda a distribuir a lágrima pela superfície dos olhos, a redução favorece o ressecamento.
"Quando ficamos concentrados em um monitor por longos períodos, nossa taxa de piscamento cai drasticamente. Enquanto o normal é piscar cerca de 15 a 20 vezes por minuto, em frente às telas esse número chega a cair pela metade, o que gera o ressecamento da superfície ocular, irritação e sensação de areia nos olhos", explica o médico.
O lacrimejamento excessivo também pode ser consequência desse processo. Diante do ressecamento, o organismo aumenta a produção de lágrimas como resposta reflexa. Peso nas pálpebras, ardência, fisgadas e pontadas também podem surgir depois de períodos prolongados de esforço visual.
A questão ganha outra dimensão quando o computador deixa de ser a única tela do dia. Para muita gente, a pausa no trabalho significa pegar o celular. O tamanho muda, mas os olhos continuam direcionados para uma distância curta, sem uma interrupção efetiva do esforço de foco.
Ergonomia não termina na cadeira
Cadeira e altura da mesa costumam dominar as discussões sobre ergonomia, mas a posição do monitor e a iluminação do ambiente são igualmente importantes. A tela deve ficar no nível dos olhos ou ligeiramente abaixo. No caso de notebooks, suportes associados a teclado e mouse externos ajudam a reduzir a inclinação do corpo.
“Frequentemente, a inclinação excessiva do tronco ocorre como uma tentativa de compensar o posicionamento incorreto do ecrã, que é superfície plana em que se visualizam imagens”, explica.
Reflexos também fazem diferença. Uma janela ou lâmpada incidindo diretamente sobre o monitor aumenta o contraste que os olhos precisam enfrentar para enxergar o conteúdo. A orientação é evitar que a tela fique diretamente exposta às fontes de luz e ajustar brilho e contraste de acordo com o ambiente.
"Ajustar o contraste e o brilho do monitor para que fiquem equivalentes à luz do ambiente ao redor é essencial. Além disso, o uso de filtros de luz azul durante a noite ajuda a diminuir o impacto negativo na qualidade do sono e no descanso visual", pontua o especialista.
Entre as medidas mais simples está a regra 20-20-20. A recomendação é interromper o trabalho visual a cada 20 minutos, durante 20 segundos, e olhar para um ponto situado a aproximadamente seis metros.
“Nesse momento, deve-se direcionar a visão para algo situado a seis metros de distância. Tal prática auxilia no relaxamento da musculatura ocular, mitigando o cansaço dos olhos. Esse intervalo permite que a musculatura intraocular se relaxe, gradativamente”, ensina Leiser.
Ambientes com ar-condicionado podem agravar o ressecamento por apresentarem menor umidade. Colírios lubrificantes podem ser necessários em algumas situações, mas devem ser utilizados com orientação médica.
Quando a tela ocupa boa parte da jornada, portanto, ardência e dor de cabeça não precisam ser incorporadas à rotina como preço obrigatório do trabalho. Pausas, luz, postura e posicionamento do equipamento também interferem em quanto esforço será exigido dos olhos até o fim do expediente.
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