Queda no dólar após eleições pode prejudicar agronegócio goiano

Produtores podem vender a sua produção com dólar mais barato do que usaram na compra de insumos
Por O Hoje
Data: 08/10/2026
Foto: Rafa Neddermeyer/ABr

A valorização do real frente à moeda norte-americana deixou os produtores rurais de Goiás atentos. Na segunda-feira (5), o mercado financeiro reagiu à liderança do senador Flávio Bolsonaro (PL) sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no primeiro turno das eleições presidenciais, provocando uma queda de 4,12% no dólar, que fechou cotado a R$ 5.

O recuo foi o mais intenso registrado em um único dia desde junho de 2018. O movimento de baixa persistiu nos pregões seguintes, com a moeda se mantendo na casa de R$5 nesta quarta-feira (7).

Apesar da animação do mercado financeiro, o assessor técnico da Federação da Agricultura e Pecuária de Goiás (Faeg), Lucas Lopes, avalia que a oscilação rápida do câmbio impõe desafios para o campo e precisa ser acompanhada com cautela.

De acordo com o assessor técnico, a dinâmica cambial tem um efeito de duas pontas sobre o setor produtivo. Por um lado, um câmbio menor favorece a redução nas despesas de insumos atrelados ao mercado externo. Por outro, derruba com rapidez a remuneração das safras comercializadas no mercado interno e nas exportações.

Ao mesmo tempo, o recuo do dólar atinge o faturamento das propriedades rurais de forma imediata. “Do outro lado, a valorização do real pode exercer uma pressão mais rápida sobre a receita do produtor. Commodities como soja e milho possuem seus preços internos fortemente relacionados às cotações internacionais e à taxa de câmbio. Com um dólar menor, a conversão dessas commodities para reais tende a perder força, pressionando os preços pagos no mercado doméstico”, pontua Lopes.

Descasamento cambial na safra 2026/2027

Essa oscilação no câmbio chega no início dos trabalhos da safra 2026/2027, um cenário no qual os produtores já adquiriram a maior parte dos adubos, sementes e defensivos em períodos nos quais a moeda norte-americana estava com valor elevado. Esse intervalo entre as despesas e a venda das colheitas gera um descasamento cambial que ameaça a rentabilidade das propriedades.

“Na prática, o produtor pode ter custos formados com um dólar mais caro e receitas formadas com um dólar mais barato. Se não houver compensação por preços internacionais mais elevados ou por ganhos de produtividade, esse movimento pode comprimir as margens e, dependendo da intensidade, também influenciar o valor bruto gerado pela produção agropecuária em Goiás”, ressalta.

O assessor técnico destaca ainda os impactos sobre a competitividade externa e as limitações geográficas do Estado. Para grãos como soja e milho, o preço pago ao produtor resulta de uma equação que reúne a cotação global, a taxa cambial, prêmio de exportação e as despesas com transporte.

Nesse sentido, a distância física até os portos exerce uma pressão sobre a rentabilidade e o lucro dos produtores locais. “Para Goiás, existe ainda a questão logística. Por estarmos distantes dos principais portos exportadores, o frete já representa uma parcela importante da formação do preço. Por isso, movimentos expressivos do câmbio podem ter reflexos relevantes sobre a rentabilidade do produtor goiano”, pontua.

Janela para a safrinha

Embora o cenário para a safra de verão demande contenção de riscos, o assessor técnico da Faeg aponta que o recuo do dólar pode abrir janelas de oportunidade para a segunda safra de 2027, a safrinha. Os agricultores que ainda não fecharam pacotes tecnológicos poderão negociar fertilizantes e defensivos com custos menores, desde que o câmbio permaneça acomodado nos patamares atuais.

Mesmo assim, a entidade destaca que essa vantagem não chega de maneira imediata às lavouras, dependendo do escoamento de estoques antigos das distribuidoras e do comportamento dos preços globais das matérias-primas.

“Para a 2ª Safra, portanto, um câmbio mais baixo pode abrir oportunidades nas próximas negociações, especialmente em fertilizantes e outros insumos dolarizados. Mas é importante acompanhar não apenas o dólar, preços internacionais das matérias-primas, frete, oferta global e estoques também entram nessa conta. O momento exige gestão dos custos e observar as oportunidades de fixação dos custos sem perder de vista a proteção da receita da produção”, comenta.

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