Goiás chega a 553 empresas em recuperação judicial até julho

Com quinto maior número de pedidos, estado vê alta no 1° semestre por maior peso local do agronegócio; economista aponta para a estabilização
Por O Popular
Data: 11/08/2026
Dificuldade em alta - Fonte: Monitor RGF BizDoc (até 30/06/2026)

Goiás encerrou o primeiro semestre de 2026 com 553 empresas em recuperação judicial (RJ), o maior nível dos últimos dois anos e o quinto maior estoque do País. Na comparação entre o primeiro e o segundo trimestre do ano, a evolução, apesar de tímida, de 3,6% (19 novas empresas), e abaixo do ritmo visto em Minas Gerais e no Paraná - onde houve avanço de até 40% em 12 meses -, mantém a curva de crescimento.

Os dados são do Monitor RGF BizDoc, a que o POPULAR teve acesso com exclusividade. O levantamento, que cruza a base primária de CNPJs da Receita Federal para mapear recuperações judiciais, extrajudiciais e falências no País, mostra que embora Goiás esteja na quinta colocação no estoque de empresas em RJ - atrás de São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná e Minas Gerais -, sua densidade é a segunda maior do Brasil.

A densidade se deve ao Índice de Recuperação Judicial (IRJ) - que mede quantas empresas em RJ existem a cada mil empresas ativas no Estado. Assim, em Goiás, este indicador está atualmente em 0,56, que é quase o dobro da média nacional, de 0,30.

De acordo com o economista Cláudio Damasceno, sócio sênior da RGF e da BizDoc, o número não deve ser interpretado de forma alarmante, mas como radiografia de uma vulnerabilidade estrutural do estado. "Goiás tem uma vulnerabilidade muito grande por ter um peso do agronegócio muito grande também", diz.

Por ter um peso industrial menor que outros estados, explica Damasceno, o que afeta o agro acaba afetando diretamente Goiás. Ao mesmo tempo, ele confirma a leitura de um momento de acomodação. "Goiás já viveu o pico de RJ e o pico da crise e continua avançando, mas num ritmo menor. A gente chama de um estágio de maturidade", prossegue.

Esse contexto, porém, vem com um alerta técnico. Segundo Damasceno, há uma defasagem de um a três trimestres entre a pressão econômica sobre uma empresa e o registro formal da crise. Primeiro vem a inadimplência, depois a insolvência, e só então a recuperação judicial é iniciada.

"A movimentação que se estabilizou relativamente nesse semestre, ela é uma estabilização temporária", avalia o economista, justificando que o efeito da pressão de preços do último ano ainda não terminou de aparecer nos números.

Tamanhos

Mas enquanto a base completa de CNPJs em RJ segue subindo, o recorte de matrizes realmente ativas caiu para 455 no trimestre (-4,8%). A empresa média goiana em recuperação está perdendo densidade - de 210 companhias de porte médio em 2023 para 186 hoje -, num fenômeno que o relatório chama de "churn" - o fluxo de novos pedidos continua, mas passa a ser compensado pela saída de empresas já em RJ.

Ao mesmo tempo, as microempresas em recuperação dobraram desde 2023 (de 70 para 147), sinalizando que a crise também desceu para negócios menores.

O maior ingresso goiano em 2026 foi a Pilar de Goiás Desenvolvimento Mineral, mineradora de ouro no Centro-Norte do Estado, com capital social de R$ 397,6 milhões. Damasceno afirma que a RJ, nesse caso, funciona mais como "escudo patrimonial", impedindo que máquinas, equipamentos, caminhões sejam executados pelos credores. E que o impacto é mais voltado para os fornecedores do que sobre o setor de mineração.

O advogado Dyogo Crosara explica que a RJ não tem atualmente caráter de "não aceitação" que já teve no passado. "Muitos empresários diziam que não podiam reconhecer que quebraram porque não teriam mais pique para poder recuperar. Hoje as coisas estão mais claras. A recuperação hoje é entendida como uma fase importante do processo de soerguimento da empresa. É normal e é possível", diz.

Agro

O agronegócio é o setor que melhor resume o problema em Goiás. São ao menos 132 empresas do setor em RJ, sendo esta a maior densidade setorial do Estado (IRJ de 10,9 por mil, seis vezes a média nacional do setor), respondendo por 55% de todos os novos ingressos em 2026.

Do total, 77% são empresários individuais - o produtor rural pessoa física -, com capital social mediano de apenas R$ 10 mil, concentrados em soja (35%) e pecuária de corte (27%).

Damasceno cita o caso da soja, que, segundo ele, "tem mercado, mas não tem preço". "A soja não remunera o produtor e a consequência vai acontecendo no tempo. Se olharmos a cadeia dos demais setores econômicos de Goiás, vemos claramente um impacto no setor da indústria, no comércio, mas todas elas após o impacto no setor do agro", afirma o economista.

Questionado sobre o risco do El Niño projetado para a safra 2026/27, Damasceno destaca que a leitura é mais otimista para Goiás, pois a faixa do hemisfério onde o Estado está localizado costuma sofrer menos oscilação climática que o Nordeste e o Sul. "A gente pode ter um efeito até benéfico - a se comprovar que é uma safra bem-sucedida de Goiás, que ela pode se beneficiar de safras ruins de outras regiões do Brasil", afirma.

A propagação da crise do agro para toda a cadeia produtiva em Goiás tem efeitos que devem ser observados em dois termômetros: arrecadação (empresas em crise param de pagar impostos) e emprego. Damasceno também destaca o custo do crédito, uma vez que a Selic caiu a 14%, mas a taxa média cobrada das empresas está em 33%.

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