Mercados sofrem com guerras
Tensões geopolíticas impactam preços de commodities e pode aumentar preços de produtos ao consumidor. Na foto, o presidente do Sindicato das Indústrias de Panificação de Goiás (Sindipão), Sílvio Cipriano Moreira, que relata um aumento de 5% no preço do trigo. (Fábio Lima / O Popular)
Os dois principais conflitos geopolíticos em andamento neste momento impactam, cada vez mais, as economias pelo mundo. Um dos maiores reflexos das guerras na Ucrânia e no Irã é a oscilação dos preços das commodities . O Brasil já sente uma forte queda nas exportações de soja e milho para os países do Oriente Médio, a disparada nos preços dos fertilizantes, problema que pode afetar até o desempenho da safra brasileira, e alta no custo do petróleo, que impacta todas as cadeias produtivas.
A relação comercial entre o Brasil e o Irã movimentou quase US$ 3 bilhões em 2025 e está concentrada em commodities agrícolas. Em 2025, milho e soja responderam por 87,2% das exportações brasileiras para aquele país. O Brasil também comprou, aproximadamente, US$ 84 milhões em produtos iranianos. Fertilizantes e adubos, essenciais para o bom desempenho da safra brasileira, representaram cerca de 79% do total.
O movimento de alta nas commodities agrícolas reflete as tensões geopolíticas no Leste Europeu, entre Rússia e Ucrânia, e as incertezas do conflito entre Estados Unidos e Irã. Especialistas alertam que os desdobramentos geopolíticos no Mar Negro seguirão influenciando os prêmios do milho, que teve alta de 4,27% em Chicago na semana passada. No Brasil, o contrato da B3 fechou em R$ 70,58 por saca.
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Na semana passada, a Rússia impôs uma proibição temporária à entrada e saída de embarcações do porto de Novorossiysk, entre meia-noite e 5 da manhã, devido a ataques com drones ucranianos que afetou o preço do trigo no mercado. Houve um aumento de US$ 5 nas taxas de frete, fator que está pesando mais no valor do produto.
As exportações goianas de milho para o Irã já caíram 37% neste ano, em relação ao mesmo período ao ano passado, enquanto as vendas de soja para o Oriente Médio recuaram 30%. Mas, com a dificuldade de escoamento dos grãos vindos do Leste Europeu, há uma pressão compradora sobre os Estados Unidos e o Brasil, o que pesa nas cotações globais, mas direciona o grão que deixa de ser vendido lá para outros mercados.
Para Lucas Lopes de Castro, assessor técnico da Federação da Agricultura do Estado de Goiás (Faeg), o primeiro impacto é, justamente, sobre o comércio exterior e sobre a produção agropecuária. "Para produzirmos internamente, precisamos importar alguns produtos que vêm de lá, como matérias-primas para os fertilizantes. Por isso, um dos principais impactos é sobre o fósforo, a ureia e o potássio, pois o Oriente Médio é responsável por 80% da produção que abastece o mercado global", explica.
Um dos maiores exemplos é o do enxofre, insumo do qual o Brasil é ainda muito dependente destes países. Além disso, o enxofre para o agronegócio ainda concorre com a indústria das baterias para carros elétricos. "Por isso, a cotação da tonelada no início do ano, que estava em US$ 430, hoje já está em US$ 1.152, um aumento de 150%, inviabilizando para o agronegócio", ressalta Lopes. Já o MAP (fosfato monoamônico) passou de US$ 630 para até US$ 900.
Segundo o assessor da Faeg, o que mais encareceu foi o custo da logística marítima, já que o canal de Suez e o Estreito de Hormuz enfrentam um período de bloqueio. "Quando liberam, passam poucos navios por dia, o que gerou um congestionamento. Para chegar até aqui são, pelo menos, 90 dias de viagem. Isso vai impactar o custo da safra 2026-2027", prevê.
Como 55% dos defensivos agrícolas e 75% dos fertilizantes já foram comercializados para a safra que será semeada em setembro, o maior impacto será no custo de produção, que deve ser de 4 a 5 sacas maior que na safra passada. "O maior risco é a indisponibilidade dos fertilizantes para a safrinha, se estes conflitos permanecerem por mais 60 dias", alerta.
A pauta exportadora brasileira para o Oriente Médio tem produtos estratégicos para a segurança alimentar daqueles países, como carne de frango, milho, açúcar, carne bovina e soja. Mas o milho merece atenção especial pela grande dependência do mercado iraniano. Das 12,9 milhões de toneladas exportadas para o Oriente Médio em 2025, 9 milhões foram para o Irã.
Contudo, Lopes lembra que, com abertura de várias usinas de etanol, Goiás vai absorver grande parte da queda de 37% nas exportações para o Irã. "Devemos ter quatro novas usinas processando o grão a partir de 2027 no estado", informa. Uma delas deve processar 2 milhões de toneladas de milho, em Rio Verde.
O estado também exporta 1,3 milhão de toneladas de soja para o Oriente Médio e o conflito impacta a venda. "A cotação da soja já valorizou em decorrência do dólar e do pagamento dos prêmios nos portos", destaca.
O diretor executivo da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Goiás (Aprosoja-GO), Leonardo Machado, informa que, hoje, um dos principais consumidores de milho são os EUA, que usam o grão para a produção de etanol. "O preço de um grão acaba afetando o outro, como trigo e milho. Eles são cotados na mesma bolsa de Chicago. O investidor trabalha em vários mercados e um contamina o preço do outro", adverte.
Além do fato de o Irã ser o principal comprador do milho brasileiro, o Oriente Médio também é um grande consumidor de trigo e soja, e o conflito acaba impactando os preços. "Mas a principal commodity afetada é o petróleo. Por isso, um grande impacto do confronto no Irã é a alta no preço dos combustíveis, que eleva os custos em todas as cadeias de produção", ressalta Machado. A grande questão é que o pool logístico no Oriente Médio é estratégico para o mundo.
Ele concorda que outro grande reflexo é sobre o custo dos fertilizantes. "O enxofre é o principal insumo para a produção de fertilizantes e, hoje, já há falta dele no mercado", destaca. A Mosaic e a Cemoc são as grandes mineradoras de fertilizantes de fósforo, e a primeira já interrompeu a produção em Catalão. Por conta disso, o preço está subindo muito e ainda há preocupação com a disponibilidade para o período da safra.
Trigo
As cotações internacionais do trigo registraram valorização expressiva nas principais bolsas mundiais, impulsionadas pelas condições climáticas em regiões produtoras da Europa e dos Estados Unidos. Segundo o indicador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a tonelada saltou de R$ 1.174, em janeiro deste ano, para R$ 1.410,28 na semana passada.
Apesar da disparada dos preços, a comercialização do trigo no mercado interno brasileiro avança em ritmo moderado e apresenta baixa liquidez. Segundo o Cepea, a fraqueza nos negócios reflete a conjuntura típica da entressafra nacional.
Para Silvio Cipriano Moreira, presidente do Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitaria de Goiás (Sindipão), a variação no preço ainda é pequena, cerca de 5%. Segundo ele, os impactos dos conflitos foram amenizados por um aumento na produção mundial no ano passado, o que ajudou a segurar os preços, apesar da guerra.
"Nosso grande parceiro no fornecimento é a Argentina, mas também compramos do Canadá e da Rússia, que tiveram uma produção muito boa. Além disso, os pães já tiveram um pequeno reajuste desde o início do ano", explica.
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