Ex-secretário decidia uso de recursos apropriados, aponta inquérito
O inquérito da Delegacia Estadual de Combate à Corrupção (Deccor) que apura suspeitas de desvios de verba em contratações da Secretaria Municipal de Cultura de Goiânia (Secult) nos anos de 2023 e 2024 diz que o ex-titular da pasta e ex-vereador Zander Fábio (Podemos) "mantinha a palavra final sobre o destino dos recursos apropriados". Zander e dois donos de entidades contratadas pela Secult na gestão passada - Jean Jesus Magno Lima e Silva e Welton da Silva Nogueira - foram presos temporariamente na terça-feira (26) na Operação Cultura Em(Cena).
O POPULAR revelou ainda na terça que o inquérito traz trocas de mensagens entre os investigados com pressões por liberação de dinheiro, pedidos de favores e supostas orientações sobre destinação de recursos. As apurações envolvem pagamentos de cerca de R$ 1,5 milhão em 41 operações da Secult.
Segundo as investigações, "com valores na conta, Zander realizava transferências para terceiros e pagamentos de natureza particular, incluindo a quitação de boleto de IPVA, sendo os valores rigorosamente contabilizados por Jean Jesus em anotações submetidas à apreciação de Zander".
Além dos três mandados de prisão, a operação cumpriu 12 de busca e apreensão. Entre os alvos estão o ex-vereador Leandro Sena (Novo) e o irmão dele, Alessandro Sena (veja quadro). Segundo o inquérito, o então vereador também mantinha influência sobre os pagamentos da Secult e atuava para beneficiar o suposto grupo criminoso.
As investigações focam pagamentos da secretaria voltados a eventos de exposição de carros antigos, incluindo contratações de artistas e produtores. Segundo a Deccor, cinco empresas foram utilizadas pelo grupo para receber pagamentos para as atividades. Elas são de propriedade de parentes de Jean e de Welton, foram constituídas pouco antes dos contratos, com capital simbólico e sem sede própria, e não teriam experiência nem estrutura para realizar os eventos.
"Apuração preliminar revelou que esses profissionais, de acordo com a descrição do Portal da Transparência do município, eram na realidade os próprios diretores do clube, seus amigos e familiares, nomes que, ao que tudo indica, figuraram nos contratos apenas formalmente", diz o inquérito.
Para os investigadores, as trocas de mensagens reforçam "interferência direta" de Zander no direcionamento das contratações. "Mesmo durante o período em que esteve afastado do cargo para concorrer às eleições, a dinâmica continuou a ser operada por intermédio do seu substituto", afirmam.
Zander, que era vereador, deixou a Secult em abril de 2024 para disputar a reeleição, mas, segundo o inquérito, manteve influência na pasta em que foi sucedido por Eduardo Pereira de Souza - também alvo de mandado de busca e apreensão.
Em uma das conversas, Jean envia a Zander, em julho de 2024: "Zandin, você é o cara, né, velho!? Chega na sua mão, o trem resolve. Já deu certo, tá aqui já". O empresário havia pedido ajuda para agilizar o andamento de um processo que tramitava junto à Agência Municipal de Meio Ambiente, relativo à obtenção das licenças necessárias para realização de um dos eventos do Clássicos Goiânia.
O inquérito também traz troca de mensagens dos investigados com Leandro Sena. "Na condição de vereador à época, o representado era provocado sempre que surgia algum problema ou demora nos pagamentos - provocação essa que, em algumas ocasiões, vinha acompanhada de imagens das contas bancárias zeradas, enfatizando a pertinência da sua intervenção", aponta.
Em uma das mensagens, Jean avisa a Leandro que "o dinheiro caiu". Em outra ocasião, o então vereador responde ao dono da entidade: "Tudo resolvido chefe". Segundo a polícia, ele se referia a confirmação de um dos pagamentos.
O inquérito aponta mensagem em que Jean, "com dinheiro em caixa" orienta seu filho - Rafael Ataídes Lima Silva, também investigado - a transferir R$ 9 mil a Alessandro, irmão de Leandro.
Zander não foi reeleito para a Câmara de Goiânia, mas assumiu cadeira de vereador como suplente no mês passado, com licença da vereadora Léia Klebia (Podemos). Após a operação, ela anunciou que voltará ao cargo.
A TV Anhanguera mostrou que Zander foi preso enquanto assistia à missa na Igreja Matriz de Campinas, em Goiânia.
O advogado dele, Marcelo Di Rezende, afirmou à reportagem que a prisão é "totalmente desnecessária" e que deve protocolar pedido de habeas corpus em breve. Ele negou irregularidades e disse que o vereador "está à disposição das autoridades policiais e não tem nada a esconder".
A reportagem não conseguiu contato com as defesas dos demais investigados.
Picadeiro
Zander, Leandro e Jean haviam sido alvos da Operação Picadeiro, também da Deccor, em julho do ano passado, com mandados de busca. O foco da investigação era o pagamento de duas emendas de vereadores em total de R$ 1,8 milhão ao Instituto Vida - da família de Jean Jesus -, feito pela Secult. As emendas haviam sido destinadas por Leandro Sena e pelo vereador Sargento Novandir (DC).
Com a análise de celulares apreendidos na ocasião, a Deccor afirma que houve a instauração do novo inquérito diante de "evidências concretas no sentido de que o Clube Clássicos Goiânia foi instrumentalizado para a prática de diversos crimes no interior de um esquema autônomo e significativamente mais abrangente, que transcende os fatos investigados no inquérito policial originário, indo muito além da atuação no contexto das emendas parlamentares".
"Os investigados elaboraram um sofisticado esquema criminoso que, em última análise, concebeu um conjunto de pessoas jurídicas para, a um só tempo, absorver os recursos públicos oriundos de contratações diretas realizadas pela Secult, com fundamento nas hipóteses de inexigibilidade da licitação, e lavar o dinheiro ilícito decorrente da atividade", afirmam os investigadores.
Além das duas operações recentes, Zander tem histórico de envolvimento em denúncias e ações policiais desde o início dos anos 2000, quando foi investigado por esquema de desvio de recursos do INSS. Ele era diretor da extinta Companhia Municipal de Obras (Comob) de Goiânia.
Ele também foi denunciado pela Operação Multigrana, em 2017, deflagrada pelo Ministério Público de Goiás e que investigava esquema de desvio de dinheiro público nos parques Mutirama e Zoológico de Goiânia.
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