Vítima diz que série da Netflix sobre drama do césio 137 em Goiânia desonra memória de seus irmãos

Para Odesson Ferreira, 71 anos, produção exibida não retrata realidade e mancha história de Devair e Ivo, já falecidos, que eram donos dos ferros-velhos envolvidos na tragédia
Por O Popular
Data: 25/03/2026
Odesson Ferreira critica abordagem da série: “Não é uma história minha, mas de Goiânia, de Goiás e do Brasil” (Claudio Reis)

O lançamento da minissérie Emergência Radioativa , da Netflix, que retrata o acidente radiológico com o césio 137 em Goiânia , em 1987, e os esforços para conter a tragédia, fez com que o tema voltasse a repercutir. Entretanto, Odesson Alves Ferreira, de 71 anos, irmão dos donos dos ferros-velhos envolvidos no acidente, tece críticas à produção e afirma que ela não condiz com a realidade, além de manchar a memória dos irmãos. Ao POPULAR , Odesson revelou que pretende judicializar a questão.

A minissérie Emergência Radioativa estreou no dia 18 de março. Produzida pela Gullane, a obra é inspirada no acidente real com o césio 137 na capital goiana, a maior tragédia já vivida pela cidade, que vitimou diretamente quatro pessoas e deixou inúmeros impactos ao longo dos anos.

Na trama, Johnny Massaro dá vida ao protagonista Márcio, personagem inspirado no físico nuclear Walter Mendes Ferreira , que foi o primeiro cientista a perceber a gravidade da situação. Por outro lado, o dono do ferro-velho, Evenildo (Bukassa Kabengele), retratado na produção audiovisual como uma figura controversa, traz elementos da história de Devair Alves Ferreira, irmão de Odesson. Devair foi quem comprou a fonte radioativa e distribuiu fragmentos entre amigos e familiares.

Além dele, a série apresenta o personagem João (Alan Rocha) em fatos vividos por Ivo Alves Ferreira, outro irmão de Odesson, que teve contato com o material e chegou a levá-lo para casa. A esposa de Devair, Maria Gabriela Ferreira, e a filha de Ivo, Leide das Neves Ferreira, de apenas 6 anos, foram duas das vítimas fatais diretas do acidente.

Atualmente, Odesson, que perdeu falanges dos dedos indicadores e ficou com marcas de ferimentos nas mãos em decorrência da manipulação do césio 137, vive aposentadoria na zona rural de Águas Lindas de Goiás, no entorno do Distrito Federal, e afirma estar saudável. Ele realiza acompanhamento anual para verificar o estado de saúde em relação ao acidente. "Fiz meus exames na última semana e estou bem", conta.

Odesson começou a assistir à minissérie da Netflix, Emergência Radioativa , nos últimos dias e avalia que a produção banalizou o acidente. Ele, que já foi presidente da Associação das Vítimas Civis do Acidente com Césio (AVCésio), afirma que sempre lutou para que a história do acidente não caísse no esquecimento, mas defende que ela seja contada de forma fiel à realidade. "Não é uma história minha, mas sim de Goiânia, de Goiás e do Brasil", avalia.

Segundo ele, outros radioacidentados com quem conversou também estão chateados com a produção audiovisual. "Eu já não esperava algo positivo, porque me ligaram dizendo que iam fazer a minissérie, mas não fizeram nenhuma pergunta para nós sobre nada. Então percebi que não ia sair algo legal", desabafa.

O aposentado aponta que a minissérie tem muitos pontos diferentes da história real. Ele conta, por exemplo, que, quando houve a constatação do acidente radioativo, nem todos os membros da família foram encaminhados ao Estádio Olímpico Pedro Ludovico para monitoramento da contaminação. "A Maria Gabriela (esposa de Devair e na minissérie retratada como Antônia) e a Leide (chamada de Celeste na produção) foram direto para o HDT (Hospital de Doenças Tropicais Dr. Anuar Auad)", frisa.

Ele ainda aponta que, na minissérie, a fonte de césio 137 foi levada diretamente para a casa de Devair --- na Rua 26-A, no Setor Aeroporto, em Goiânia. "Na verdade, ela ficou entre os dias 13 e 18 (de setembro de 1987) na Rua 57 (no Setor Central, local da casa de Roberto, um dos homens que achou a fonte)", diz Odesson. Ele também pontua que, na minissérie, a casa de Devair e o ferro-velho aparecem em locais diferentes. "Não era assim. Ficava tudo junto, no mesmo lote", esclarece.

Outro aspecto levantado por Odesson é que Maria Gabriela não levou a fonte diretamente para a Vigilância Sanitária de Goiânia. De acordo com ele, antes disso, o material foi colocado em um caminhão e levado para outro depósito. Lá, permaneceu por algum tempo até ser buscado por Maria Gabriela e apresentado à Vigilância Sanitária.

O irmão também afirma que Devair nunca reuniu toda a família em casa para distribuir o césio 137 e que, ao contrário de um pó, a substância era uma espécie de pequena pedra que, ao ser quebrada, se dividia em fragmentos menores. "No contato com o ar, ficavam umedecidos", lembra-se.

Na avaliação dele, a história de Walter Mendes Ferreira, físico central na identificação da tragédia, tomou conta de boa parte do enredo, quando, na verdade, outros envolvidos também tiveram protagonismo e contribuições relevantes. "Ficou uma coisa superficial", observa.

Ainda assim, para o aposentado, a diferença mais grave diz respeito à forma como a fonte radioativa foi encontrada. Segundo ele, a minissérie dá a entender que os personagens que representam Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira estavam roubando a unidade de cesioterapia abandonada nas ruínas do Instituto Goiano de Radioterapia, na Avenida Paranaíba. "Quando, na verdade, pegaram algo que estava abandonado. Falei com o Wagner e não estava lá dentro dos escombros, como mostram na série. Estava de fora", relata.

Segundo ele, isso induz à crença de que Devair, ao adquirir a fonte, cometeu o crime de receptação, que, pelo Código Penal Brasileiro (CPB), consiste na aquisição, recepção, transporte, condução ou ocultação de coisa que se sabe ser produto de crime. Por isso, ele afirma que pretende acionar a Justiça. "Estão ferindo a memória dos meus irmãos. Eles não estão aqui para se defender", reclama.

A reportagem tentou contatar a Netflix para comentar as pontuações feitas por Odesson, mas não obteve resposta até o fechamento desta edição.

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