Operação prende membros de duas facções criminosas em Goiás
A Polícia Civil do Estado de Goiás (PC-GO) investiga a presença de facções criminosas em municípios do Sul do Estado. Nesta terça-feira (24), o Grupo Especial de Investigações Criminais de Itumbiara (Geic), da 6ª Delegacia Regional de Polícia, deflagrou a primeira fase da Operação Destroyer -- Frente Oculta, que mirou 12 pessoas ligadas ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e à Amigos do Estado (ADE). Além dessa, o Ministério Público de Goiás (MP-GO) contabiliza 19 ações em território goiano desde 2023.
Na madrugada desta terça, a polícia cumpriu 18 mandados de prisão preventiva e 8 de busca e apreensão contra investigados pelo crime de participação em organização criminosa. Seis dos investigados que tiveram mandado de prisão autorizado já estavam detidos por crimes anteriores. Outro integrante já estava morto, vítima de facadas em Jataí. Em Itumbiara, oito foram presos. Os outros dois foram detidos em Itaberaí e Porangatu.
De acordo com o delegado Juliano Campestrini, a investigação começou em 2024. Ele, no entanto, não quis dizer o que motivou a polícia a iniciar a apuração nem os indícios encontrados porque a operação continua em andamento e ele acredita que a divulgação das informações poderia favorecer os investigados. Segundo o investigador, estão no grupo lideranças do PCC em Goiás.
O POPULAR apurou que os líderes seriam dois homens conhecidos como Rogério Rapadura e Paulinho Vigilante, que integram um núcleo menor do PCC em Goiás. Os dois já estavam presos. A polícia não quis confirmar a identidade dos alvos.
Campestrini disse que a célula identificada em Goiás não tem autonomia em relação à facção paulista, mesmo que um dos integrantes seja da ADE, que é uma organização criminosa fundada no Estado e ligada ao PCC. O delegado contou que entre os crimes cometidos pelos investigados estavam tráfico de drogas, furtos e roubos. "Eles cometem crimes diversos, mas participar de organização criminosa é um crime autônomo", disse.
Goiás
Esta é considerada a primeira operação da Polícia Civil de Goiás que mira facções criminosas em 2026. Contudo, a pedido do POPULAR , o MP-GO informou que o Estado protagonizou 19 investigações desde 2023. Dessas, 14 foram deflagradas pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).
Outras cinco resultaram em denúncias feitas pela 99ª Promotoria de Justiça de Goiânia, de atuação no combate ao crime organizado, e foram iniciativas da PC-GO e da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco), que é uma estrutura de cooperação criada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) em parceria com órgãos estaduais e federais de segurança.
Segundo o MP-GO, as investigações somam 98 mandados de prisão. A maior delas foi a Operação Sintonia de Goiás, com 69 mandados. A Operação Sintonia do Entorno do Distrito Federal realizou 15 prisões. Ao todo, foram 134 mandados de busca e apreensão, além de outras medidas cautelares.
Bartira Miranda, advogada criminalista e professora na Faculdade de Direito da Universidade Federal de Goiás (UFG), com mestrado em Ciências Penais, explicou que as facções surgiram na década de 1970, como uma reação às condições precárias e à violência do sistema prisional. O PCC, por exemplo, teve sua fundação ligada a uma insatisfação após o massacre do Carandiru, em São Paulo, nos anos 1990.
Ela conta que as forças estatais, contudo, só começaram a olhar para essas organizações nos anos 2000. "Nas últimas décadas, a gente tem visto esse crescimento da criminalidade organizada para além dos presídios", disse. Bartira afirma que o movimento tem ganhado força em todo o País e o tráfico de drogas já até deixou de ser a principal fonte de renda desses grupos. "A criminalidade organizada começou a investir em setores formais da economia. Há uma mistura de lícito com ilícito", disse.
A professora afirma que a solução ainda não é algo simples. "A segurança até hoje não é uma política de Estado, é uma política de governo, ainda. A gente não tem clareza sobre para onde vamos em termos de segurança pública", disse. Para Bartira, o Direito Penal não dá conta do problema. "Até porque ele só chega atrasado", considerou.
Ela também avalia que a presença das facções em Goiás ainda é inicial, porque há poucas áreas controladas por esses grupos no Estado. "Elas estão principalmente no sistema prisional e no entorno do DF. O que prevalece em Goiás são negócios menos territorializados e menos violentos", explicou.
Pesquisadora do Centro de Estudos em Segurança e Cidadania (CESeC) no Projeto Panóptico, que monitora o uso de tecnologias na segurança pública do País, Yasmin Rodrigues defende que o Estado deve agir para reduzir o encarceramento em massa para conseguir combater as facções. "O encarceramento em massa, sobretudo de presos provisórios, não combate o crime, é o contrário, ele fortalece as facções porque amontoa pessoas nos presídios e elas passam a se enfileirar nessas organizações para sobreviver à lógica do próprio presídio", disse.
Em Goiás, há um déficit de 4.485 vagas no sistema prisional, segundo dados publicados no Levantamento de Informações Penitenciárias, referente ao primeiro semestre de 2025. Ao todo, há 18.658 presos no Estado. Para Yasmin, a prisão de pessoas que não possuem papel de liderança não resolve.
"Não adianta prender em massa meninos jovens, negros, que já buscam alguma alternativa para escapar de uma vida precária. Colocá-los em presídios superlotados não garante dignidade, ao contrário, facilita que sejam cooptados por organizações criminosas e acabem presos a uma trajetória de servidão ao crime. No fim, isso só agrava o problema", acrescentou.
Mais Notícias
Esteja sempre atualizado sobre os principais acontecimentos
Renda média atinge R$ 3.628 e desemprego cai em Goiás, registrando os melhores índices da série histórica
Goiás supera média nacional de rendimentos, reduz informalidade para 35,1% e registra maior número de ocupados já contabilizado Saiba mais
Vítima diz que série da Netflix sobre drama do césio 137 em Goiânia desonra memória de seus irmãos
Para Odesson Ferreira, 71 anos, produção exibida não retrata realidade e mancha história de Devair e Ivo, já falecidos, que eram donos dos ferros-velhos envolvidos na tragédia Saiba mais