Goianos que moram no Golfo temem escalada de guerra no Irã

Moradores de lugares como Qatar e Dubai vivem incertezas sobre o futuro da região, mesmo relatando sensação de segurança
Por O Popular
Data: 04/03/2026
O casal Rafael Castro e Lívia Jorge Naben vive há 7 anos no Qatar (Arquivo pessoal)

No quarto dia de conflito no Oriente Médio, goianos que moram na região do Golfo Pérsico (chamado pelos árabes de Golfo Arábico) se preocupam com a possibilidade de escalada do conflito . Nos Emirados Árabes Unidos, após um dia de aparente tranquilidade, a situação voltou a ficar tensa. "Hoje fiquei mais ansiosa, me lembrou o primeiro dia", disse ao POPULAR a criadora de conteúdo goianiense Sindy Guimarães Mohammed, de 33 anos, após um míssel direcionado à embaixada dos Estados Unidos em Dubai ser interceptado, com a queda dos destroços tendo causado um incêndio.

"Hoje à noite houve muito barulho e jatos passando, mais do que na noite anterior. Começaram no fim da tarde e se intensificaram. Eu vi da minha janela uma interceptação virar uma bola de fogo", relata.

Sindy se mudou para Dubai há 11 anos para se casar com o comerciante indiano Hamza Mohammed, de 31. Apesar das notícias e rumores de guerras serem constantes na região, ela conta que não esperava viver algo parecido. "Os conflitos no Oriente Médio sempre pareceram bem distantes de nós. As relações diplomáticas dos EAU me passavam muita segurança. Então, uma situação assim pegou todos nós de surpresa", explica.

O casal tem três filhos, de 1, 4 e 7 anos. As crianças tiveram as aulas suspensas, o que altera a rotina da mãe. O negócio do marido, que vende móveis de madeira maciça, também tem sentido o impacto. "Os móveis vêm direto da Índia e os contêineres não conseguem chegar aqui. E ainda temos contêineres presos no porto (Jebel Ali), que foi atingido por destroços de mísseis abatidos", afirmou.

Apesar de a situação ter alterado o dia a dia de Dubai, que deixou de registrar, por exemplo, congestionamentos nos horários de picos, há ainda assim muita gente nas praias, no shopping, inclusive indo à loja de Hamza. "Não existe pânico, mas um senso cívico de obedecer às sugestões do governo. O governo tem mandado alertas pedindo para que a população fique em casa se possível, trabalhe remotamente e consulte as mídias do governo antes de sair de casa, para ver se tem algum perigo iminente .Também nos alertaram para evitar janelas e sacadas durante intercepções ativas."

Na primeira conversa com o POPULAR , no terceiro dia de conflito, quando a situação estava mais tranquila, Sindy havia relatado que as primeiras 24 horas haviam sido as mais difíceis até então. "As explosões de intercepções foram bem altas e próximas de onde moro. Moro de frente para o mar, em linha reta entre Dubai e o Irã. Então, várias intercepções aconteceram em cima da gente, além de vermos e ouvirmos caças e jatos passando perto de nós. As janelas tremiam, pássaros voando para longe, meus gatos assustados, meus filhos perguntando o que estava acontecendo, foi bem assustador."

Nesta quarta (3), ela voltou a ficar receosa. "Ver que a embaixada americana na Arábia Saudita foi atacada me deixou incerta sobre o futuro. Historicamente, o Irã não prolonga muito seus ataques, pois está sempre sozinho contra múltiplos países ao mesmo tempo, os quais têm um grande poder bélico. Então não costuma durar muito. Mas ver que estão expandindo a área de ataque me deixa confusa sobre o futuro", afirmou em relato antes mesmo da segunda embaixada norte-americana, desta vez na cidade onde mora, ser alvo de ataque.

Mesmo diante das incertezas, a criadora de conteúdo não cogita a possibilidade de voltar para o Brasil, "a não ser em última instância". "Será apenas se a situação por aqui ficar insustentável. Por enquanto, os Emirados Árabes demonstraram um poder de defesa impressionante. Foram enviados mais drones e mísseis aqui do que todos os países da região somados. E apenas 4% vazou a defesa e nenhum atingiu a cidade diretamente. Sendo que apenas drones furaram a barreira. Todos os mísseis balísticos foram interceptados. Os Emirados são um dos cinco países com a melhor defesa aérea do mundo e têm mostrado que realmente funciona e que estão preparados", detalha.

Maior base

Outro país do Golfo Pérsico alvo constante de ataques é o Qatar. É lá que o piloto Rafael de Castro Lima, de 43 anos, mora desde que trocou Goiânia por Doha, há 7 anos. Levou junto a mulher, a odontóloga anapolina Lívia Jorge Naben, onde vivem com dois filhos. Apesar de relatar uma sensação de segurança, ele afirma que, se tivesse a oportunidade, retornaria para o Brasil.

"Gostaríamos de voltar e esperar até que o conflito se resolva, porém o espaço aéreo está fechado e sem previsão de abertura", diz o goianiense.

O piloto acredita que o conflito possa escalar ainda mais, levando em conta o prognóstico feito pelo presidente dos Estados Unidos. Donald Trump disse que a operação no Irã pode levar de quatro a cinco semanas. A preocupação de Rafael não é em vão. O Qatar abriga a maior base norte-americana fora dos EUA, que também está sendo usada como a central de comando da operação. Apesar de estar separado do Irã pelo Golfo, os dois países ficam a aproximadamente 500 km em linha reta sobre o mar, uma distância ínfima para os mísseis e drones iranianos.

"Mísseis continuaram sendo interceptados ao longo do dia, conseguimos ouvir as explosões e até ver algumas dessas interceptações nos céus. De ontem para hoje houve tentativas de atingir o aeroporto, além de outros alvos civis como a central elétrica da cidade, reservatório de água e a indústria de gás natural", enumerou.

A mulher, Lívia, conta que o casal já esperava há algum tempo que algo fosse acontecer, por conta das notícias. "Mas confesso que é sempre um susto estar diante de uma situação em que perdemos o controle de ir e vir. Com o fechamento do aeroporto, há uma grande preocupação no caso da guerra escalar e ficarmos presos aqui. Passar por tudo isso com duas crianças não é fácil. Já percebemos que o Irã não está muito amigável com nenhum dos países do Oriente Médio."

Mesmo assim, a odontóloga se mantém otimista. "Graças a Deus, o Qatar está muito bem resguardado com a defesa. Não teve nenhum dano grave em relação aos civis, e preciso confessar que não estou com medo, preocupada sim, mas medo e vontade de deixar de morar aqui, de forma alguma. Acredito que, quando tudo isso passar, tudo se organizará. É um país extremamente seguro, eu brinco que até durante uma guerra me sinto segura aqui."

Lívia também compara a nova rotina com os tempos de pandemia. "Ficarmos em casa, tendo que ter certos cuidados para sairmos, as crianças estão com aula online, o que não é fácil de forma alguma, mas acredito que temos que ter fé em Deus, estar sempre em vibração positiva que isso tudo vai passar. Só espero que seja logo e sem muitos danos!", detalha.

"Pode soar ambíguo, mas é difícil explicar sobre a segurança daqui. Só vivendo o dia a dia, conhecendo a forma como o governo age e lida com a questão da segurança. Podem achar estranho, mas aqui é um lugar que, mesmo durante uma guerra, transmite segurança."

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