Casos de feminicídio crescem 6,4% em Goiás
Em 2025, 316 mulheres foram mortas ou sofreram tentativa de feminicídio no estado. É o que aponta um estudo publicado em 19 de fevereiro pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios, da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná. No Brasil, foram 6.904 casos, a maior quantidade registrada pelo levantamento, que está em sua terceira edição. Os números incluem dados oficiais e coletas feitas de forma independente.
Em relação a 2024, Goiás teve um aumento de 19 casos, o que equivale a 6,4%. Foram 297 feminicídios tentados e consumados naquele ano. Além disso, a taxa por 100 mil mulheres passou de 8 para 8,5 de um ano para o outro. A variação é menor que a nacional, mas os índices ainda são considerados altos.
A professora Daiane Bertasso, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que participou da elaboração do estudo, destaca que a taxa de 8,5 casos por 100 mil habitantes é um índice maior do que em outros 15 estados. Apesar disso, o aumento de 0,5 ponto de um ano para o outro foi um dos menores do País. Goiás só ficou atrás do Pará, Rio Grande do Norte, Rondônia e Roraima.
O aumento das tentativas e das mortes por questões de gênero no Brasil foi de 34% -- passou de 5.150 para 6.904. De acordo com o levantamento, 31,1% (2.151) desses casos são de feminicídios consumados e os outros 68,9% são de tentativas. Bertasso explica que foi importante incluir as tentativas de feminicídio no estudo para abrir um alerta sobre essas políticas de prevenção. "Isso revela que são muitas situações de violência que as mulheres passam diariamente no contexto familiar e que podem se tornar, depois, um feminicídio consumado."
Parceiros
O estudo também indica que o tipo de feminicídio mais incidente no país foi o íntimo, que representou 75,48% dos casos. Ele se caracteriza quando os suspeitos são parceiros íntimos, sejam eles atuais ou antigos. Para Bertasso, esse porcentual é mais um indicativo da fragilidade estatal. "As políticas públicas existem, mas há também toda uma cultura de violência, de desigualdade de gênero, que antecede esses feminicídios. Há casos de mulheres que buscaram ajuda, denunciaram e, ainda assim, foram assassinadas", reforça.
Um dos dados do estudo mostra que 22% das mulheres mortas no Brasil denunciaram antes e, ainda assim, tornaram-se vítimas. Para Bertasso, esse é um número que aponta a necessidade de mais políticas públicas. "A gente precisa que essa mulher se sinta confiante e amparada para tentar evitar (sua morte), porque tem como evitar o feminicídio, mas é preciso o empenho de toda a sociedade."
O segundo tipo mais incidente foi o familiar, com 10,38%, que ocorre quando o assassino é alguém com quem tinha algum parentesco, por consanguinidade, afinidade ou adoção. As tipologias são estabelecidas pelo Modelo de Protocolo Latino-americano que reúne as variáveis coletadas pelas organizações que atuam no projeto Mapa Latino-americano de Feminicídios.
Idade
A maioria das vítimas no Brasil têm entre 25 e 44 anos de idade. Elas são 55,7% dos alvos. O estudo relaciona esse dado com as construções socioculturais em torno da feminilidade e das dinâmicas conjugais e familiares. "Tais dinâmicas são reproduzidas nos papéis sociais de gênero relativos às expectativas de relações conjugais heterossexuais, à maternidade, e ao contexto familiar patriarcal, de controle, posse e dependência (materiais e simbólicos) dessas mulheres jovens e adultas, que são vulneráveis às violências de gênero", diz o relatório.
O levantamento aponta, ainda, que crianças e adolescentes presenciaram 30% dos crimes. Além disso, 69% das vítimas tinham filhos ou dependentes, sendo que 101 estavam grávidas. Segundo o estudo, 1.653 crianças ficaram órfãs em 2025 pela morte da mãe. A pesquisa também inclui o homicídio vicário como um feminicídio -- quando o agressor mata um ente querido da mulher com o intuito de feri-la emocionalmente.
Secretaria aponta número menor
A Secretaria de Segurança Pública (SSP-GO) afirma que, oficialmente, Goiás teve 216 vítimas de tentativas de feminicídio e 59 mulheres mortas em crimes de feminicídio. Os dados são do Observatório de Segurança Pública, com base em registros policiais formalmente instaurados.
Segundo a pasta, os registros policiais são feitos de acordo com "critérios técnicos padronizados e metodologia transparente, auditável e alinhada às diretrizes nacionais". A secretaria afirmou, em nota, que os levantamentos, como o da UEL, que utilizam dados produzidos com base em monitoramentos próprios, "não representam a estatística oficial do Estado e, por adotarem parâmetros diferentes, podem apresentar resultados divergentes e interpretações distorcidas da realidade." Para a SSP-GO, o risco desse tipo de levantamento paralelo é de comprometer a precisão da análise e induzir a conclusões equivocadas.
Vítima cobra políticas de acolhimento
Há dez anos, em um domingo à noite, a produtora Carmelita Gomes, de 57 anos, estava de pijamas, deitada, pronta para dormir e assistindo à televisão, quando seu companheiro chegou do bar. Mal ela havia percebido sua chegada, quando se viu debaixo do homem que a enforcava. A partir daí, foi alvo de uma série de agressões que quase a levaram à morte.
Uma década depois, Carmelita ainda teme dizer o nome do criminoso. Ela lembra que foi arrastada pela casa e espancada. "Meu rosto ficou desfigurado", contou. Foi uma vizinha que escutou o barulho e chamou a polícia. "Eu já estava desmaiada quando os policiais militares chegaram", relata.
Na época em que sofreu a tentativa de feminicídio, havia acabado de iniciar o relacionamento com o suspeito, que logo se mudou para sua casa.
Carmelita disse que seu sofrimento não acabou nas agressões daquele domingo. Na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) que a recebeu, a produtora conta que não havia a preparação necessária para recebê-la. O homem chegou a ficar preso por três meses, mas depois foi solto. Ela tem medida protetiva contra ele, mas, mesmo com a restrição, o suspeito aparecia reiteradas vezes na porta de sua casa nos meses que sucederam o crime.
Para ela, é fundamental que o poder público invista em políticas de acolhimento das vítimas, com ao menos uma rede de proteção.
O feminicídio é o assassinato de mulheres por razões de gênero, tipificado no Brasil pela lei nº 13.104/2015. Quem sofre ou presencia algum tipo de violência contra as mulheres pode denunciar por meio do: 190, canal de emergência da Polícia Militar; 180, para falar na Central de Atendimento à Mulher; 197, para falar no Disque Denúncia da Polícia Civil; ou ir direto a uma Delegacia Especial de Atendimento à Mulher (Deam).
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