Tarifa global de Trump favorece a Goiás retomar exportações

Taxa de 10% adotada pelos EUA indica retorno do volume negociado de vermiculita e açúcar orgânico, afetados por tarifaço
Por O Popular
Data: 26/02/2026
Dança das tarifas (Mudanças na tarifação das importações americanas devem beneficiar exportações goianas)

O fim do tarifaço imposto no ano passado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e a recente adoção da tarifa global de 10% devem favorecer as exportações de produtos goianos . A projeção é de retomada integral das vendas, principalmente de açúcar orgânico e do mineral vermiculita, para o mercado americano, itens que ficaram praticamente inviáveis com a taxa de 50%.

Desde a implantação do tarifaço, em agosto de 2025, as exportações de açúcar orgânico caíram 58% e as de vermiculita tiveram uma retração de 86%.

Os Estados Unidos passaram a aplicar nesta terça-feira (24), uma tarifa adicional de 10% sobre a taxa base de todos os produtos que não estejam cobertos por isenções por um período de 180 dias. Brasil e China são os países mais beneficiados pela reconfiguração das tarifas anunciadas por Trump, segundo a Global Trade Alert, organização independente que monitora políticas de comércio internacional.

O Brasil terá a maior redução nas tarifas médias, incluindo as já vigentes, com queda de 13,6 pontos porcentuais. Juliana Tormin, gerente de Internacionalização da Federação das Indústrias de Goiás (Fieg), lembra que negociações já haviam conseguido reduzir as tarifas para alguns itens no ano passado. Mas observa que os principais produtos exportados por Goiás para o mercado americano não entraram nessa redução.

Mesmo assim, comparando as exportações entre setembro e dezembro de 2025 com as do mesmo período de 2024, a maior parte dos produtos goianos não foi impactada. Um bom exemplo foi a carne, que buscou mercados alternativos, como o México. Por outro lado, os produtos mais prejudicados foram o açúcar orgânico, que registrou retenção de 58% nas exportações, e a vermiculita, que apresentou queda de 86% no período.

Juliana Tormin ressalta que os EUA figuram como segundo principal destino das exportações goianas: em 2025, foram US$ 641,4 milhões exportados, 57% mais que em 2024, o equivalente a 4,8% do total. Agora, o principal benefício para Goiás é a recomposição da competitividade mundial. O mais importante, segundo ela, é a redução das distorções de preço, reestabelecendo equilíbrio da concorrência com outros países.

"Nossa balança poderia ter sido muito melhor em 2025 se não houvesse a queda nestes dois setores", alerta.

Açúcar orgânico

O secretário de Indústria e Comércio de Goiás, Joel Braga, confirma que o açúcar orgânico e a vermiculita, mineral muito comprado pelos EUA para fazer isolamento térmico na construção civil, foram os produtos mais prejudicados pelo tarifaço de Trump , desde agosto de 2025. "Goianésia é líder de açúcar orgânico no Brasil", destaca. Ele lembra que Goiás também é destaque nacional na produção de vermiculita.

Segundo Braga, os dois setores tentavam de várias formas a liberação da tarifa de 50%. "É um mercado que não tinha como ser substituído para esse açúcar, que tem alto valor agregado, assim como a vermiculita, enquanto produtos como a carne buscaram outros mercados e até aumentaram as exportações", lembra. Os dois produtos eram muito direcionados ao mercado americano. "A redução também gera mais segurança jurídica para voltar a exportar lá", acredita o secretário.

A Jalles, em Goianésia, é uma das maiores produtoras de açúcar orgânico do mundo, exportando para mais de 20 países, inclusive os Estados Unidos. O diretor comercial da Jalles, Henrique Penna de Siqueira, informa que, com o tarifaço, a empresa perdeu cerca de 40% do volume exportado aos EUA, desde setembro do ano passado. Ele explica que, como os contratos são anuais, a empresa ainda sofrerá os impactos negativos dessa queda nos próximos meses deste ano.

Cerca de 50% da demanda americana hoje é atendida pelo Brasil. Por isso, a segunda maior preocupação era perder espaço para outros países produtores no mercado americano, como Colômbia, Argentina e Paraguai, porque eles estavam com uma tarifa de 10%.

"Já existiam tarifas sobre a importação desse programa nos Estados Unidos, que somavam juntas 50%. Com o tarifaço, o Brasil passou a pagar 100% e os outros países 60%", explica.

Agora, como o Brasil tem melhor competitividade, qualidade, mais certificações e serviço, a expectativa é recuperar esses mercados e manter o status de maior exportador para os Estados Unidos, com a tarifa de 10%, que é a mesma para todos os outros concorrentes.

Siqueira ressalta que o setor teve apoio do governo federal para atravessar este período difícil, através do programa Brasil Soberano, do BNDES.

Vermiculita

O Brasil é o segundo maior exportador mundial de vermiculita. Em Goiás, há 40 anos, a vermiculita é extraída pela Brasil Minérios de uma mina em São Luís dos Montes Belos. A empresa responde por 80% da produção nacional. O presidente da Brasil Minérios, Wilton Machado, disse que ainda não há novidades sobre a retomada do fluxo normal das exportações para os Estados Unidos, medida que ainda está sob avaliação dos clientes americanos.

Da produção de 60 mil toneladas anuais do minério, 40% vão para os EUA, 40% para o mercado brasileiro e 20% para Europa e Ásia. Por isso, o impacto do tarifaço foi enorme. "Perdemos 40% de nossa receita, pois as vendas para os EUA pararam totalmente", contou Machado ao POPULAR em novembro de 2025.

O código de construção para prédios com estrutura de aço nos EUA exige a aplicação da vermiculita para proteção contra incêndio. Outro uso é na horticultura, como componente do substrato usado nas plantações feitas em estufa. A produção americana atende apenas 50% do consumo interno. "Como dependemos muito de frete, que às vezes é tão caro quanto o produto, não consigo ser competitivo na Ásia, por exemplo", alertou o empresário.

Mais benefícios

Para o presidente da Associação Comercial, Industrial e de Serviços do Estado (Acieg), Rubens Fileti, os benefícios do fim do tarifaço vão além dos setores mais impactados. Segundo ele, qualquer mudança para simplificação tributária, redução de burocracia e fim das oscilações de tributação gera um ganho imediato para Goiás, que depende muito de rotas longas para exportação e escoamento agrícola e industrial.

Além disso, previsibilidade e redução da pressão tributária setorial contribuem para o crescimento de Goiás. "Essas oscilações de tarifas são muito ruins para a economia. Definindo uma alíquota única que 10%, está tudo certo. Isso acaba simplificando todo o processo, e dá mais previsibilidade interna", avalia Fileti.

Além disso, ele comenta que quando o câmbio está bem competitivo e há menos barreiras comerciais, o processo aduaneiro é mais rápido. Com isso, o superávit brasileiro deve aumentar e Goiás deve ampliar sua participação no total de exportações.

Para ele, a medida deve incentivar até um aumento do fluxo de importação industrial. "Teremos um agro mais competitivo, além de setores de energia e mineração, com a grande demanda global, mais fortalecidos", prevê o presidente da Acieg.

O presidente do Sindicato das Indústrias de Carne e Derivados do Estado (Sindicarne) Leandro Stival explica que, dentro da tariff rate quota, que é a cota dentro da tarifa, o Brasil tem direito a 65 mil toneladas por ano, com uma tarifa de 4.4%. Acima da cota, chamada de over-cot tariff, a tarifa gira em torno de 26.4%.

Como o tarifaço de 50% já havia sido reduzido para o setor, no ano passado, por meio de um acordo bilateral entre o Brasil e os Estados Unidos, que considerou alguns produtos agrícolas de necessidade econômica para o mercado americano, o setor voltou aos patamares anteriores de taxação e não será impactado pela redução da tarifa para 10%.

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