Qualidade de vida em Goiânia esbarra em custo que consome até 60% da renda

Com a maior parte do salário comprometida com despesas essenciais, famílias goianas enfrentam dificuldade para manter estabilidade financeira e acesso a qualidade de vida
Por O Hoje
Data: 25/02/2026
Foto: Marcello Casal Jr./ABr

Apesar de ainda figurar em rankings como a segunda melhor capital brasileira para se viver, Goiânia enfrenta um cenário de aperto financeiro para grande parte da população. O custo de vida em Goiás já compromete até 60% da renda das famílias, dificultando o pagamento de despesas básicas e reduzindo o poder de compra.

Conhecida nacionalmente como “Capital Verde do Brasil” e historicamente associada à qualidade de vida no Centro-Oeste, Goiânia convive com uma percepção crescente de encarecimento. Nas redes sociais, moradores relatam dificuldade para equilibrar o orçamento diante da alta nos preços de moradia, alimentação e serviços.

A questão foi pontuada após um vídeo da influenciadora Ana Paula Noletto viralizar no TikTok. No conteúdo, que muitas visualizações, ela questiona a fama de “cidade barata” atribuída à Capital.

Ana relatou indignação após ir ao salão de beleza: “Acabei de sair do salão, fui ali e fiz uma hidratação, uma escova e a unha do pé, e eu acabei de pagar 251 reais”. Para ela, o valor é incompatível com o salário mínimo atual, de R$ 1.512. “Eu só fico pensando assim, quem hoje que consegue viver, eu não tô falando de sobreviver e pagar a conta, mas viver, ir num salão, às vezes pedir uma pizza no final de semana, entendeu? Não tô falando de luxo não, coisa básica, com um salário. Em Goiânia, impossível”, desabafou.

Ao relembrar quando fazia renda extra como panfleteira e vendedora na Festa de Trindade, a influenciadora destacou o peso da moradia. “Hoje, aluguel de casa normal, barracão… esses dias eu estava passando e vi uma plaquinha: 890 reais por um kitnet. A pessoa tem um salário, ela vai pagar aluguel, água, energia, gás, internet, não sobra pra comprar nem um açaí no final de semana”, afirmou.

Vida pela visão de especialistas

Especialistas avaliam que o conceito de “viver bem” vai além de quitar contas. A presidente do Conselho Regional de Economia de Goiás (Corecon-Go), Adriana Pereira de Sousa, define que viver bem economicamente é ter “capacidade de manter estabilidade financeira com dignidade”, incluindo moradia adequada, lazer, saúde e formação de reserva de emergência.

“Viver bem é não viver no limite do orçamento”, resume. Pesquisas da Serasa e do Instituto Opinion Box indicam que o custo de vida médio em Goiás é de R$ 3.370 por mês. Embora abaixo da média nacional, de R$ 3.520, o valor coloca o Estado na 9ª posição no ranking nacional de maior custo de vida, evidenciando o peso das despesas.

O principal entrave é a distância entre renda e gastos. O economista Luiz Carlos Ongaratto observa que o comprometimento de quase 60% da renda com despesas essenciais como supermercado, moradia e contas fixas elimina qualquer margem de segurança. “Se a gente tem uma alteração de preço, tem inflação, acaba que vai pesar muito mais essa parcela que é grande desse orçamento”, explica.

Adriana reforça que o cenário é insustentável no médio prazo: “O comprometimento de até 60% da renda com despesas essenciais não é considerado sustentável. Quando mais da metade da renda é absorvida por moradia, alimentação e contas fixas, a família torna-se vulnerável a choques de renda e ao endividamento”.

Segundo a economista, a localização da moradia é o fator que mais impacta a renda necessária para viver na Capital. Em bairros valorizados como o Setor Marista e o Setor Bueno, uma pessoa solteira precisaria de renda líquida entre R$ 5.500 e R$ 7.000 para viver com conforto. Para um casal com dois filhos nesses mesmos setores, os custos podem variar entre R$ 9.000 e R$ 16.000 mensais. Mesmo em regiões mais afastadas, uma pessoa solteira dificilmente manteria qualidade de vida com menos de R$ 3.500 a R$ 5.000, considerando lazer e poupança.

As projeções para 2026 não indicam alívio imediato. A energia elétrica, que teve reajuste próximo de 20% no último ano, e os aumentos nos aluguéis seguem pressionando o orçamento. Conforme Adriana, “não há previsão de queda relevante nos custos de moradia; a tendência é de estabilidade com leve viés de alta nos bairros mais demandados”.

A alimentação, especialmente fora de casa, e os planos de saúde acumulam reajustes acima da inflação geral, impulsionados pela inflação de serviços. Para a presidente do Corecon, aproximar renda média e custo de vida ideal exige medidas estruturais, como melhoria da mobilidade urbana e ampliação da oferta habitacional de médio padrão.

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